PARTE 1

Introdução

     

          A partir deste mês, estamos iniciando uma série especial sobre o último livro da Bíblia Cristã: o Apocalipse de São João. Comentaremos, com uma linguagem simples e sintética, os pontos mais importantes sobre esta obra tão polêmica e curiosa.

            No fim desta série, acreditamos que você, caro leitor internauta, tenha acesso a uma apostila dinâmica e sucinta, porém com certa profundidade de conhecimento sobre o assunto.

1. Circunstâncias históricas

            Antes de mais nada, precisamos entender a situação histórica da época. Em que condições socio-históricas se encontrava a época da elaboração do Apocalipse?

            No término do século I d.C., os cristãos enfrentavam uma grave crise espiritual. Todos já estavam na expectativa da Parusia, ou segunda vinda de Cristo. Em 64, o Imperador Romano Nero começou sua perseguição aos cristãos.

            Os cristãos eram perseguidos não somente por Roma. Os judeus não convertidos também não tratavam bem os seguidores de Jesus. Depois de Nero, que declarou o nome cristão proibido, o imperador Domiciano (81-96) também perseguiu os católicos da Igreja que nascia. São João , autor do Apocalipse, bispo de Éfeso, foi deportado nesta época para a Ilha de Patmos .

            Encarcerado, João, o apóstolo, bispo, começa a escrever para os cristãos um livro de consolação e esperança.

            Que livro seria este? O Apocalipse.

            Você, caro leitor, notará que o livro do Apocalipse não trata do fim do mundo. Trata da esperança cristã.

2. A Esperança e a Teoria da Cartolina Branca

            Diante de tanto sofrimento imposto aos cristãos daquela época, muitos se perguntariam: onde está Jesus, nosso Deus?

            No Apocalipse há uma sucessão de cenas dolorosas e de paz e confiança. Resumiríamos tal sucessão na seguinte condição: na terra existe dor, mas no céu há alegria e paz.

            D. Estevão Bettencourt, na sua obra Curso Bíblico, diz que a mensagem está nos transmitindo um grande ensinamento, muito parecido com a teologia da cruz.

            A história da humanidade é como um belo tapete persa, segundo ele.  O lado de cima do tapete é trabalhado e harmonioso, enquanto que o lado de baixo é sujo e cheio de fiapos. Quem observa o lado de baixo lamenta, mas quem vê o de cima regozija profundamente. Mas qual é o jeito correto de ver o tapete? Por acaso alguém já colocou no meio de sua sala um tapete do lado do avesso?

            O tapete não foi feito para ser contemplado pelo avesso.

            Nem a história da humanidade. A história dos cristãos, precisamente, contemplada por Deus, a partir da eternidade, verificará que a dor e as perseguições aos seguidores de Jesus estão envolvidas num plano grandioso de IHWH.  Os justos cantam no Céu Aleluia, enquanto que os homens peregrinos na terra, gemem.

            O sofrimento leva à salvação. E a esperança alimenta a fé ofendida. Como a teoria ou explicação da cartolina branca com um pequeno ponto preto. Quem observá-la se concentrará no minúsculo ponto preto (lamentos e dor), e não despertará para o fato de que 99,99% do espaço da cartolina está coberto pela cor branca (paz e vitória). É uma questão de ponto de vista.

3. As diversas interpretações

            Observemos no quadro a seguir, as quatro interpretações que incidem sobre o livro do Apocalipse. Observe, analise e verifique qual delas é a mais sensata, harmônica e compatível com a intenção do autor, a realidade da época e o Cristianismo.

Sistema Escatológico

Sistema da Antigüidade

Sistema Universal

Sistema da Recapitulação

Seriam os acontecimentos do fim dos tempos, mostrando a vitória de Deus sobre o pecado. Trata-se de uma interpretação antiga e abandonada durante a Idade Média. Há quem entenda o Apocalipse ao pé da letra. Entretanto, João não perdeu contato com a história de sua época, como veremos depois. Tal sistema, portanto, é vazio e incompleto.

Seriam os acontecimentos do início da história da Igreja, apresentando a luta dos cristãos contra os judeus e pagãos. Esta luta terminaria em 313, com a queda da Roma Pagã, encerrando-se no séc. IV d.C. Obviamente, é um sistema insuficiente, pois existe algo mais profundo do que isto nos textos apocalípticos.

Seriam os acontecimentos de toda a história do Cristianismo, descrevendo os principais episódios de cada época e do fim do mundo.

Tem origem na idéia de que o Apocalipse consta de três septenários: 7 selos, 7 trombetas e 7 taças. Sete é o símbolo da totalidade. Cada septenário recapitularia toda a história da Igreja, descrevendo o fio condutor por trás dos acontecimentos: a luta entre Cristo e Satanás. Os protagonistas mudam a cada época, mas a luta continua. Depois do terceiro septenário, o desfecho nos capítulos 21 e 22, mostrando a vitória definitiva de Cristo, com a ressurreição dos corpos e a renovação da natureza material.

            Qual dos sistemas é o correto, preferido, mais harmônico com o estilo de São João?

            O sistema de recapitulação seria o mais correto. São João quer dizer que as tribulações desta vida não surpreendem Jesus e os santos celestiais. Estes acontecimentos estão previstos por Deus, que é onisciente. Tais acontecimentos possuem dupla face: a visível, que nos aflige, e outra, interior, que só os olhos da fé conseguem enxergar.  Trata-se da vitória do Bem sobre o Mal, a prolongação da obra do Cordeiro de Deus, que foi imolado, mas atualmente reina sobre o mundo com as chagas glorificadas, como Senhor da História (Ap 5,5-14).

"5.Então um dos Anciãos me falou: Não chores! O Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi achou meio de abrir o livro e os sete selos.
6. Eu vi no meio do trono, dos quatro Animais e no meio dos Anciãos um Cordeiro de pé, como que imolado. Tinha ele sete chifres e sete olhos (que são os sete Espíritos de Deus, enviados por toda a terra).
7. Veio e recebeu o livro da mão direita do que se assentava no trono.
8. Quando recebeu o livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma cítara e taças de ouro cheias de perfume (que são as orações dos santos).
9. Cantavam um cântico novo, dizendo: Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça;
10. e deles fizeste para nosso Deus um reino de sacerdotes, que reinam sobre a terra.
11. Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos Animais e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares,
12. bradando em alta voz: Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor.
13. E todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo que contêm, eu as ouvi clamar: Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos.

14. E os quatro Animais diziam: Amém! Os Anciãos prostravam-se e adoravam."
(Ap 5,5-14)

            Tal sistema ainda deixa a desejar, mas é o mais aceito. Adiante, veremos os significados dos textos e tentaremos conjugar tal sistema às interpretações apresentadas.


Fonte de Pesquisa: Curso Bíblico, Escola Mater Ecclesiae, D. Estevão T. Bettencourt.