PARTE 2

4. A polêmica do número 666

            Este texto difícil apresentado pelo Apocalipse foi aqui destacado para alcançarmos a seguinte conclusão: levar ao pé da letra o último livro de João seria inaceitável, observando a realidade histórica que suscitou esta linha do Ap 13,18:

"Eis aqui a sabedoria! Quem tiver inteligência, calcule o número da Fera, porque é número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis." (Ap 13,18)

            Como sabemos, os antigos praticavam o simbolismo dos números. Neste texto sacro, o perseguidor dos cristãos teria seu nome originado o valor numérico 666.

Para os antigos, as letras tinham valor numérico, como no alfabeto romano – estamos cansados de conhecer os números romanos, não? – V = 5; L = 50; C = 100; D = 500 ... – e tal soma  resultava no valor do nome inteiro.

            QUAL O NOME CUJAS LETRAS SOMADAS DÃO 666?

            Antes de mais nada, compreendamos as seguintes informações:

a)       Os leitores do Apocalipse não sabiam latim;

b)       Os leitores do Apocalipse sabiam grego e, provavelmente, o hebraico;

c)       Portanto, nomes em latim estão fora de cogitação, seria ilógico e descabido;

d)       A mensagem deveria ser compreendida, portanto, falar em outros idiomas – desconhecidos - seria completamente destoante com os demais 71 livros das Sagradas Escrituras.

   Acontece que existe um argumento falso dos anticristãos – infelizmente alguns protestantes também o utilizam – que diz que o Papa é a Besta do Apocalipse, por trazer na cabeça a inscrição LATINA “VICARIUS FILII DEI”(=Vigário de Cristo, do Filho de Deus).

      Denominar o Papa como Vigário de Cristo pode ser até considerado algo correto. Vigário é aquele que está no lugar de alguém. O Papa não substitui Jesus, mas é representante máximo da Igreja. Só alguém extremamente mal-intencionado poderia acusar a Igreja de idolatria, uma vez que todos os católicos conscientes e equilibrados sabem que o Papa não é Cristo. Vejamos o cálculo:
 

V

I

C

A

R

I

U

S

F

I

L

I

I

D

E

I

Total

5

1

100

 

 

1

5

 

 

1

50

1

1

500

 

1

666

Sobre tal sofisma, respondemos apenas o seguinte:

a)       Expressões em latim devem ser desconsideradas;

b)       Nenhum papa traz na cabeça esta inscrição latina;

c)       Somente encontraram tal inscrição na lápide de um papa.

O número 666 corresponde às letras da expressão hebraica César Nero, perseguidor contemporâneo à época do livro do Apocalipse.

N

V

R

N

R

S

Q

Total

50

6

200

50

200

60

100

666

       Para reforçar esta tese, vale dizer que existem manuscritos do Apocalipse que tenham 616 em vez de 666 como o número da besta. Acontece que pode acontecer a omissão de Nun (N) no final da palavra Nero, o que descontaria 50, totalizando 616. João, portanto, usou Nero como tipo do perseguidor anticristão. Também pode significar o imperador Domiciano, que perseguiu a Igreja em 95. Esse imperador se autodenominava CÉSAR DEUS (em grego Káisar Theós). Em grego tal soma resulta também em 616. Vale lembrar que H não tem valor numérico. Este número 666 pode também designar Nero, Calígula, Trajano...  Este recurso de indicar uma pessoa por meio de um número é um método cabalístico dos rabinos hebreus, empregado na interpretação da Bíblia, chamado gematria.

K

A

I

S

A

R

T

E

O

S

Total

20

1

10

200

1

100

9

5

70

200

616

            Ora, se existem versões do Apocalipse que possuem o número 616 e seria lógico e científico só calcular o valor numérico de nomes em grego ou hebraico, sem mencionar o fato de Nero ser perseguidor à época da feitura do Apocalipse... esta explicação parece ser a mais sensata e racional possível.

            Se esta teoria estiver errada, a doutora do Adventismo, que viveu no século passado, também poderia ser considerada a besta do Apocalipse.

H

E

L

L

E

N

G

O

V

L

D

W*

H

I

T

E

Total

 

 

50

50

 

 

 

 

5

50

500

5+5

 

1

 

 

666

* Obs.: W corresponde a soma de dois V´s= V+V.

5. A polêmica sobre o Reino Milenar de Cristo

            A passagem de Ap 20,1-15 foi base para uma teoria muito antiga que dizia que, imediatamente antes do fim do mundo, teríamos um reino de Cristo aqui na terra, que duraria mil anos. Esta tese é conhecida como milenarismo. Muitas denominações cristãs recentes defendem esta interpretação, sem mencionar S. Justino e S. Irineu, entre outros, no início da era cristã.

            O quadro a seguir demonstra como seria a sucessão dos acontecimentos, tendo como base este entendimento:


Acorrentamento de Satanás

Primeira Ressurreição (apenas dos justos)


Reino Milenar de Cristo, na Terra

Segunda Ressurreição

(para os demais)


Juízo Final

            A partir do século V d.C. o milenarismo foi rejeitado e esquecido.

            Deus não é incoerente. Não existe duas verdades contraditórias. Observando a passagem de Jo 5,25-29 e esta, de Apocalipse – note que são ambos livros escritos pelo mesmo autor – concluímos que o milenarismo não deve ser considerado.

            Ambas passagens tratam do mesmo assunto e, portanto, não podem se contradizer. Leiamos as duas e entendamos:

"1. Vi, então, descer do céu um anjo que tinha na mão a chave do abismo e uma grande algema.
2. Ele apanhou o Dragão, a primitiva Serpente, que é o Demônio e Satanás, e o acorrentou por mil anos.
3. Atirou-o no abismo, que fechou e selou por cima, para que já não seduzisse as nações, até que se completassem mil anos. Depois disso, ele deve ser solto por um pouco de tempo.
4. Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera ou sua imagem, que não tinham recebido o seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma vida nova e reinaram com Cristo por mil anos.
5. (Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos.) Esta é a primeira ressurreição.
6. Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com ele durante os mil anos.
7. Depois de se completarem mil anos, Satanás será solto da prisão.
8. Sairá dela para seduzir as nações dos quatro cantos da terra (Gog e Magog) e reuni-las para o combate. Serão numerosas como a areia do mar.
9. Subiram à superfície da terra e cercaram o acampamento dos santos e a cidade querida. Mas desceu um fogo dos céus e as devorou.
10. O Demônio, sedutor delas, foi lançado num lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Fera e o falso profeta, e onde serão atormentados, dia e noite, pelos séculos dos séculos.
11. Vi, então, um grande trono branco e aquele que nele se assentava. Os céus e a terra fugiram de sua face, e já não se achou lugar para eles.
12. Vi os mortos, grandes e pequenos, de pé, diante do trono. Abriram-se livros, e ainda outro livro, que é o livro da vida. E os mortos foram julgados conforme o que estava escrito nesse livro, segundo as suas obras.
13. O mar restituiu os mortos que nele estavam. Do mesmo modo, a morte e a morada subterrânea. Cada um foi julgado segundo as suas obras.
14. A morte e a morada subterrânea foram lançadas no tanque de fogo. A segunda morte é esta: o tanque de fogo.
15. Todo o que não foi encontrado inscrito no livro da vida foi lançado ao fogo."(Ap 20,1-15)

"25. Em verdade, em verdade vos digo: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão.
26. Pois como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho o ter a vida em si mesmo,
27. e lhe conferiu o poder de julgar, porque é o Filho do Homem.
28. Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de sua voz:
29. os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados."(Jo 5,25-29)


            A primeira ressurreição é a sacramental, que se dá pelo batismo e a vida cristã. Como diz o texto do evangelho, é uma ressurreição no presente, enquanto que a segunda é futura, a corporal, no fim dos tempos.

            Este reino milenar de Cristo indica  a história da Igreja, que começa na ressurreição batismal e se encerra na ressurreição final dos corpos.

            Novamente a questão dos números: MIL é sinal de bonança e paz. No próprio Apocalipse  a história da Igreja é simbolizada por 3 ½ anos, 42 meses ou 1260 dias.

"2. O átrio fora do templo, porém, deixa-o de lado e não o meças: foi dado aos gentios, que hão de calcar aos pés a Cidade Santa por quarenta e dois meses.
3. Mas incumbirei às minhas duas testemunhas, vestidas de saco, de profetizarem por mil duzentos e sessenta dias.
9. Muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações virão para vê-los por três dias e meio, e não permitirão que sejam sepultados." (Ap 11,2.3.9)

"6. A Mulher fugiu então para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias.
14. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente."(Ap 12,6.14)

            Ora, 3 ½ é a metade de 7, que simboliza totalidade, plenitude. João, portanto, recorre a este número para dizer que a Igreja Católica tem duas faces (2 metades do mesmo total, grosseiramente explicando):

Peregrina no sofrimento, na história da humanidade (3 ½ )

Triunfante com os bens definitivos, na bem-aventurança permanente, no Céu (7 ou 1000 anos; 7 por ser pleno e 1000 por ser símbolo da bonança e da paz)

 

Primeira Ressurreição

(Batismal, nos comunicando a graça santificante)

Segunda Ressurreição

(Corporal, futura, no fim dos tempos)

            Todos sabemos que a Igreja é o início do Reino dos Céus. Experimentamos o Céu na Igreja de Cristo. Jesus está presente na Igreja através da Eucaristia e o Céu é a presença permanente de Deus em nosso ser. Temos, portanto, em nossa peregrinação terrestre, uma antecipação da felicidade eterna.

            Ainda mencionando o simbolismo dos números, presente em toda Bíblia, seria insensato mudar a lógica da interpretação justamente na última obra:

"1. Prece de Moisés, homem de Deus. Senhor, fostes nosso refúgio de geração em geração.
2. Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda a eternidade vós sois Deus.
3. Reduzis o homem à poeira, e dizeis: Filhos dos homens, retornai ao pó,
4. porque mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou, como uma só vigília da noite."(Sl 89,1-4)

6. A polêmica sobre a autoria

            Muitos divergem da questão sobre a autoria do livro da Revelação.  Existem diferenças de estilo entre os escritos joaninos (evangelho e as três cartas) e o apocalipse.

            Mas por que isto acontece?

            Supõem que existam diversos autores, da escola de São João, tendo como fonte de inspiração o próprio apóstolo.

            Esta suposição de múltiplos autores se dá pelo fato de que o Apocalipse possui seções quase independentes entre si: Ap 8,2-5; 11,1-13; 12,1-17 e 14,1-5.  Sem mencionar as cartas dirigidas a sete comunidades da Ásia Menor, que estão nos capítulos 2 e 3. Estes capítulos são praticamente independentes dos capítulos 4-22 (4 até 22).

            O Apocalipse é um deuterocanônico do Novo Testamento. A tese milenarista (tratada no item 5 desta série) foi um dos motivos para que se desconfiasse da inspiração divina do mesmo.

            Existem, entretanto, ainda sobre a questão da autoria, vários pormenores que indicariam a autoria de João Apóstolo: as próprias cartas dos capítulos 2 e 3, o cárcere na Ilha de Patmos  e até o paralelismo entre Ap 20,1-15 e Jo 5,25-29:

"Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência em união com Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus." (Ap 1,9)

            Apesar destas questões, o conteúdo é divino e historicamente encaixado. No fim do século IV fez-se consenso entre os mestres cristãos sobre a canonicidade do último livro das Sagradas Escrituras.

Fonte de Pesquisa: Curso Bíblico, Escola Mater Ecclesiae, D. Estevão T. Bettencourt.