PARTE 3

7. O prólogo, o endereço e a visão preparatória (Ap 1,1-20)

           

          Após verificarmos alguma noções iniciais e destacarmos polêmicas curiosas do último livro da Bíblia, passemos agora para o conteúdo em si, seqüenciado pelos seus próprios capítulos.

            Chamemos de prólogo, endereço e visão preparatória as três partes do primeiro capítulo do livro, do primeiro ao vigésimo versículo.

"1. Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por sua vez, por intermédio de seu anjo, comunicou ao seu servo João,
2. o qual atesta, como palavra de Deus, o testemunho de Jesus Cristo e tudo o que viu.
3. Feliz o leitor e os ouvintes se observarem as coisas nela escritas, porque o tempo está próximo. (até aqui, PRÓLOGO)
4. João às sete igrejas que estão na Ásia: a vós, graça e paz da parte daquele que é, que era e que vem da parte dos sete Espíritos que estão diante do seu trono
5. e da parte de Jesus Cristo, testemunha fiel, primogênito dentre os mortos e soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue
6. e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai, glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém.
7. Ei-lo que vem com as nuvens. Todos os olhos o verão, mesmo aqueles que o traspassaram. Por sua causa, hão de lamentar-se todas as raças da terra. Sim. Amém.
8. Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que vem, o Dominador. (até aqui, ENDEREÇO)
9. Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência em união com Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.
10. Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, voz forte como de trombeta,
11. que dizia: O que vês, escreve-o num livro e manda-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, a Filadélfia e a Laodicéia.
12. Voltei-me para saber que voz falava comigo. Tendo-me voltado, vi sete candelabros de ouro
13. e, no meio dos candelabros, alguém semelhante ao Filho do Homem, vestindo longa túnica até os pés, cingido o peito por um cinto de ouro.
14. Tinha ele cabeça e cabelos brancos como lã cor de neve. Seus olhos eram como chamas de fogo.
15. Seus pés se pareciam ao bronze fino incandescido na fornalha. Sua voz era como o ruído de muitas águas.
16. Segurava na mão direita sete estrelas. De sua boca saía uma espada afiada, de dois gumes. O seu rosto se assemelhava ao sol, quando brilha com toda a força.
17. Ao vê-lo, caí como morto aos seus pés. Ele, porém, pôs sobre mim sua mão direita e disse: Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, e o que vive.
18. Pois estive morto, e eis-me de novo vivo pelos séculos dos séculos; tenho as chaves da morte e da região dos mortos.
19. Escreve, pois, o que viste, tanto as coisas atuais como as futuras.
20. Eis o simbolismo das sete estrelas que viste na minha mão direita e dos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas. (até aqui, VISÃO PREPARATÓRIA) "(Ap 1,1-20)

           

            O livro de João é apresentado como revelação. João se apresenta em nome do próprio Deus. O último apóstolo vivo recebeu de Deus a inspiração para entender o que acontecia no seu tempo, especificamente diante das dificuldades e perseguições que a Igreja enfrentava.  Nos versículos 1-3 (do 1 ao 3)  vemos que trata-se de um livro litúrgico e, portanto, deve ser lido na igreja (v.3).

            O termo profecia aqui não quer dizer prever os acontecimentos, mas testemunhar o Evangelho, ser sinal concreto desta mensagem. 

            Acompanhe, agora, o significado das expressões deste capítulo inicial que poderão fazê-lo entender melhor as primeiras linhas do livro da revelação:

 Sete

 Significa perfeição, aquilo que permanece.

 Sete Igrejas

 Igreja Universal, Católica, a totalidade da mesma.

 Sete Espíritos

 Plenitude, totalidade do Espírito Santo (Is 11,2-3); o próprio Espírito Santo

 Sete Candelabros

 Celebração litúrgica plena da Igreja

 Sete Estrelas

 Todos os dirigentes das igrejas/comunidades particulares, pastores ou "anjos" da Igreja

 Aquele que é, Aquele que era, Aquele que vem

 É uma expansão do nome Aquele que é, Eu sou o que sou, Javé, (Ex 3,14).

 Testemunha fiel,primogênito dentre os mortos e soberano dos reis da terra

 Títulos de Jesus: Testemunha fiel, (=mártir por excelência, referência ao sacrifício na cruz); primogênito dos mortos (=ressurreição de Jesus) e soberano dos reis da terra (= Senhor do mundo).

 Eu sou o Alfa e o Ômega

 Alfa é a primeira letra do alfabeto grego e o ômega, a última. Jesus é o princípio e o fim de todas as coisas.

 Personagem que aparece na visão de João

 Jesus Cristo.

 Alguém semelhante  a um Filho de homem

 Modo que o profeta Daniel caracteriza o Messias (Dn 7,13).

 Túnica longa e cinto de ouro

 Paramento sacerdotal no Antigo Testamento. Jesus é o sacerdote por excelência.

 Cabelos brancos

 Significam o mundo celestial. A cor branca significa sinal de vitória.

 Olhos como chamas de fogo

 Onisciente, vê tudo, penetra em tudo como fogo.

 Pés de bronze

 Estabilidade. Jesus é a firmeza eterna.

 Voz como estrondo das águas

 Designa voz poderosa, com autoridade.

 Sete estrelas da mão direita

 Jesus tem a Igreja Católica nas mãos.

 Espada afiada com dois gumes e que saía de sua boca

 Simboliza a palavra de Deus, que é penetrante e cortante (Hb 4,12).

 Face como sol

 Manifestações divinas na Bíblia mostram luz, clarão, brilho... (Ex 19,16-25; Mc 9,2ss)

       Observando este belíssimo texto do primeiro capítulo, concluímos que esta mensagem está sendo transmitida pelo próprio Jesus, que é Messias, Sacerdote, Senhor, Deus. Tal mensagem é de vida. Jesus, ressuscitado, está presente na sua Igreja e agirá nela, transmitindo-lhe força. Enquanto os evangelhos nos ensinam, o Apocalipse nos dá força para continuarmos, como cristãos autênticos e fervorosos, até o fim dos tempos.

8. As Sete Cartas (Ap 2;3)

            Nos capítulos 2 e 3 estão as sete cartas dirigidas a sete igrejas ou comunidades católicas da Ásia Menor. Como já dito, “7” simboliza totalidade, plenitude. Estas cartas contém mensagens que estão destinadas não somente a estas pequenas comunidades, mas a TODA IGREJA. Como vimos no item anterior, o Apocalipse é um livro que deve ser testemunhado e é litúrgico, servindo para a igreja ou para a Igreja. Isto é, serve para ser lido na liturgia e serve como palavra inspirada para todo povo de Deus.

            Neste quadro sintético, abordaremos as sete cartas com comentários relevantes, porém sintéticos, mas que trazem a profundidade da mensagem incutida em cada uma delas.

Carta à Igreja de ...

Comentários sobre o conteúdo das mesmas:

Éfeso (2,1-7)

Éfeso era uma cidade grega, próspera e rica. A comunidade católica local foi fundada por São Paulo.  Jesus, na carta escrita por João, julga tal comunidade: ela é boa, perseverante, trabalhadora e fiel ao Evangelho.  Entretanto, falta-lhe a caridade, o amor para com Deus – teu primeiro amor. O entusiasmo foi substituído pelo hábito. Fazer por fazer. Sem amor. Sem amor, a comunidade não pode permanecer unida à Igreja Católica, sem comunhão com a mesma.  Candelabro significa dimensão litúrgica da Igreja. As orações  e a celebração litúrgica não possuem sentido sem o amor ou a caridade. No final, o conselho de OUVIR, isto é, QUERER OUVIR os conselhos! O amor é o núcleo central da mensagem do Evangelho.

Esmirna (2,8-11)

Esmirna era uma cidade rica e grande. Ficava perto de Éfeso. A comunidade cristã era pobre, entretanto.  Cristo reconhece a pobreza material desta igreja, mas destaca – és rico. A comunidade sabia resistir contra as perseguições dos falsos judeus que formavam um grupo diabólico, chamado de sinagoga de Satanás. Jesus não faz nenhuma censura, mas avisa que haverá mais perseguição e que é preciso suportar. É uma tribulação passageira – de dez dias – mas será um teste de fidelidade. Jesus diz que a comunidade deve converter seu medo e covardia em entusiasmo e coragem! É ilógico uma comunidade católica que acredita na Ressurreição de Cristo ser apática e desanimada! Vale lembrar aqui a questão dos testemunhos. Cristãos descomprometidos chegam até a censurar os cristãos definidos, perseverantes.

Pérgamo (2,12-17)

Pérgamo era uma cidade culta, vizinha de Esmirna.  Tal comunidade conseguia vencer a idolatria, não adorando o imperador. Existia naqueles tempos uma ideologia politico-religiosa que ensinava que o imperador era um deus ­ cesarolatria, ou no texto sacro, trono de Satanás. A comunidade não se envolveu com isto, tanto que um de seus líderes – Antipas – foi morto pelos romanos, sendo testemunha fiel. Apesar disso, tal comunidade cede ao sincretismo, misturando cristianismo, paganismo e até um pouco de idolatria. São João chama esta mistura de doutrina de Balaão e dos nicolaítas (Nm 25,1-3 e 31,16: Balaão é personagem do livro dos Números que levou o povo de Deus à prostituição; Nicolaístas são adeptos de uma seita gnóstica e libertina, julgavam deter o real conhecimento da verdade e tinham um certo permissivismo moral. Nicolau quer dizer aquele que vence o povo, ou seja, referência aos grupos que minavam a fé do povo de Deus). Estes nomes não parecem designar pessoas, mas tentações de infidelidade ideologico-religiosa. A comunidade de Pérgamo era assim: muitos de seus integrantes eram firmes, como Antipas; e outros permitiam falsas doutrinas, até com boas intenções, tentando purificá-las. Pedrinha Branca  é sinal da vitória  (era uma lâmina de pedra trabalhada onde era gravado o nome da pessoa que vencia nos Jogos Olímpicos). Significa a vitória daquele que se converter ao senhor, mantendo sua identidade (doutrina) e sendo alimentado por Jesus com sua palavra.

Tiatira (2,18-29)

Tiatira era uma cidade comercial movimentada, pagã. Existia lá uma comunidade católica. Jesus louva a fé e a caridade, as obras dessa comunidade.  Mas adverte quanto aos falsos profetas que enganam o povo em nome da religião. Jezabel foi mulher do rei Acab, vingativa, criminosa que favoreceu o sincretismo durante o reinado de seu marido (1 Re 16,29-31 e II re 22,37). Um simbolismo perfeito para os falsos profetas citados. Todos sabemos que prostituição e idolatria são sinônimos, aqui. Quem adora um falso deus comete adultério, traindo o verdadeiro Deus. Todos os que seguem este pecado são amantes e adúlteros, como está no versículo 22. Esta situação pode fazer com que Deus abandone a comunidade e a castigue duramente, não como propriamente castigo, mas como lição. Os fiéis, entretanto, serão os vencedores com o Cristo, participando com Ele de seu poder (v.26) e recebendo a recompensa (v.28).

Sardes (3,1-6)

Sardes era uma cidade rica, capital do antigo reino da Lídia. A comunidade católica ali fundada era inexpressiva, morta. É a única que não é elogiada por Jesus. A comunidade caminhava só, seguindo suas próprias determinações, esquecendo da unidade católica. Jesus adverte: existe possibilidade de salvação, mas é preciso vigiar! A qualquer momento o Senhor virá a ela como um ladrão (v.3). Existem pessoas que não se contaminaram (v.4), permaneceram fiéis e receberão de Deus as vestes brancas – imortalidade – e terão seus nomes escritos no livro da vida – alcançarão a vida eterna.

Filadélfia (3,7-13)

 Filadélfia era uma pequena cidade que sofreu vários terremotos.Tinha como apelido porta aberta, por ser posto de vanguarda político-militar para as incursões do exército romano pelo interior da Ásia Menor. Já o texto sacro usa este apelido para designar que a cidade é uma grande oportunidade para o apostolado e para o futuro, apesar das dificuldades enfrentadas.  Chave de Davi é citado em Isaías 22,22, mostrando que Jesus é o Verdadeiro, o Santo descrito aqui, pois só Ele tem o ofício de abrir e fechar a casa do rei. Apesar de ser fiel, tal comunidade é fraca (v.8) e as perseguições transformaram-na em uma igreja amedrontada. Jesus vem dar esperança e dizer que apesar da perseguição, a fidelidade da comunidade a protegerá (v.10). Até o versículo 12 vemos que a igreja conseguirá a salvação (=coroa) se permanecer na fidelidade (v.11). Na verdade, é Deus quem age nas pessoas e nas comunidades para transformá-las em fermento de transformação e salvação do mundo.

Laodicéia (3,14-22)

Tal cidade distava 120 km de Éfeso. Tratava-se de uma cidade grande e muito rica. Possuía uma escola de medicina e a homeopatia era famosa, principalmente o colírio e o remédio para ouvidos fabricados naquele lugar. Também existiam fontes termais muito conhecidas e freqüentadas. São João usou estes elementos da cidade, dizendo sobre frio e quente (fontes termais), riqueza e pobreza, e outros símbolos, alertando a comunidade da mesma sobre sua indefinição religiosa e moral, que faz Deus vomitá-la. Jesus é chamado de Amém, a Testemunha Fiel, o Filho de Deus.  Quantas vezes vemos comunidades indefinidas, pessoas ambíguas? Seria melhor ser negativo ou positivo, não ser morno. Laodicéia era rica de bens, mas não de virtudes. Jesus aconselha a comunidade a se purificar no fogo, ou seja, enriquecer-se espiritualmente de fato, adquirir o discernimento religioso-espiritual (colírio) e ver melhor, sabendo escolher o bem ou o mal, não o meio-termo. No v.19 Jesus mostra que repreende porque ama. Trata-se de um amor insistente que busca a salvação. Deus prefere o pecador ou o santo, não o indeciso.

            Este item sobre as cartas é muito interessante. Quantas comunidades/seitas/religiões/pessoas conhecemos que trazem algumas destas características evidenciadas nas sete igrejas apocalípticas?

            As sete cartas formam uma só carta. É uma carta para a Igreja Católica. Trata-se de um aviso e de uma lição de amor. Quando falta o amor, mas existe trabalho apostólico, temos ÉFESO. Quando existe muito desânimo e medo, temos ESMIRNA. Quando há fé e observância do Evangelho, mas existe mistura doutrinária, temos PÉRGAMO. Existem comunidades fervorosas que permitem atuação de falsos profetas: TIATIRA. Quando encontramos contradição e apenas vitalidade exterior, temos SARDES. Temos FILADÉLFIA quando há fidelidade, mas pouco disposição. E, por fim, ao evidenciarmos a prepotência e a indefinição religiosa e moral, encontramos um pouco de LAODICÉIA.

            Jesus, através de São João, sacode a Igreja e conclama-a à unidade, à definição, à conversão, à consciência de sua importância!

Fonte de Pesquisa: O Apocalipse - Explicação e Atualização, Mauro Strabeli, Ave Maria Edições.