PARTE 4

9. O trono (Ap 4,1-11)

           

          No capítulo 4 inicia-se as visões proféticas de João. Visão aqui não deve ter o sentido que entendemos atualmente, mas simplesmente uma forma de escrever daquela época, usando símbolos, comparações e números.

             João usa a história do povo de Deus, utilizando o presente de seu tempo e prever coisas que podem ou não acontecer. João indica que tudo está nas mãos de Deus, que dirige e governa a história.

               Observe o quarto capítulo, com as traduções e comentários paralelamente.

1. Depois disso, tive uma visão: vi uma porta aberta no céu, e a voz que falara comigo, como uma trombeta, dizia: Sobe aqui e mostrar-te-ei o que está para acontecer depois disso.  
 João começa dizendo que devemos refletir, abrindo a porta do céu. Para entender esta mensagem é necessário alcançar o nível sobrenatural - sobe aqui - para entender os acontecimentos.
 
2. Imediatamente, fui arrebatado em espírito; no céu havia um trono, e nesse trono estava sentado um Ser.
3. E quem estava sentado assemelhava-se pelo aspecto a uma pedra de jaspe e de sardônica. Um halo, semelhante à esmeralda, nimbava o trono.
4. Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça.
 
 João tenta descrever Deus, usando sua pequena capacidade humana. O apóstolo começa a descrever o trono de Deus (designa poder, transmitindo que Deus é Poderoso).  Todas as pedras preciosas e descrições a seguir tentam mostrar a santidade e a glória de Deus.  Observe a descrição semelhante de Ezequiel em Ez 1,26-27; 28,13.
 No versículo 4 João quer dizer que Deus domina todo o mundo. O número 24 é sinal de totalidade. Tal soma equivale às doze tribos de Israel e os doze apóstolos e, respectivamente, o Antigo e Novo Testamento são representados. Vestes brancas significa a transcendência, o céu, a vitória. Coroa quer dizer meta alcançada.
 
5. Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus.  
 Observando Ex 19,16-25 concluímos que S. João relembra a manifestação de Deus no monte Sinai, ao entregar os dez mandamentos a Moisés. Deus continua a se comunicar com seu povo no decurso da história. As sete tochas ou sete lâmpadas e os sete espíritos mostram que a salvação enviada por Deus é Jesus (a Lâmpada Permanente, sete). Os sete espíritos representam o Espírito Santo. Ainda sobre a expressão sete lâmpadas, Mauro Strabelli, em seu livro sobre o apocalipse, diz que este símbolo faz menção ao candelabro de ouro com sete braços, que indicava a presença de Deus vivo no meio do povo. Esta peça chama-se menorah.  Para os cristãos, esta luz permanente, este sinal vivo é o próprio Jesus.
 
6. Havia ainda diante do trono um mar límpido como cristal. Diante do trono e ao redor, quatro Animais vivos cheios de olhos na frente e atrás.  
 O mar simboliza, na Bíblia, confusão. E a confusão leva às forças negativas. Confusão é o oposto da Verdade Absoluta. Estas forças negativas são temporárias, por isso frágeis como o cristal.
 Os quatro seres vivos com todos estes olhos simbolizam que a ação salvadora de Deus é abrangente.
 
7. O primeiro animal vivo assemelhava-se a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno vôo.  
 O número 4 significa abrangência. Esses quatro seres vivos significam o universo criado. Deus penetra em tudo, vê tudo. Esta imagem é retirada de Ez 1,5-10 e Is 6,2s.
 
8. Estes Animais tinham cada um seis asas cobertas de olhos por dentro e por fora. Não cessavam de clamar dia e noite: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar.  
Jesus é o leão da tribo de Judá (Gn 49,9), a salvação. Seu sacrifício na cruz é simbolizado pelo touro. Esta salvação é feita em favor do homem. A águia simboliza o julgamento de Deus sobre o homem que aceitou ou recusou a salvação, como podemos evidenciar em Os 8,1 e Ez 17,1ss.
  Ou seja, este simbolismo dos animais mostra o universo criado e também a autoridade de Jesus em nos salvar. Esta salvação é universal. E também lembra os símbolos dos evangelistas, onde cada um fala especificamente para um grupo de pessoas, demonstrando que a salvação é universal, para todos. Nada mais é do que uma providência maravilhosa de Deus!
   Esses seres vivos, que representam a totalidade da salvação, cantam glórias ao Senhor, lembrando o nome de Deus (Ex 3,14).
 
9. E cada vez que aqueles Animais rendiam glória, honra e ação de graças àquele que vive pelos séculos dos séculos,
10. os vinte e quatro Anciãos inclinavam-se profundamente diante daquele que estava no trono e prostravam-se diante daquele que vive pelos séculos dos séculos, e depunham suas coroas diante do trono, dizendo:
11. Tu és digno Senhor, nosso Deus, de receber a honra, a glória e a majestade, porque criaste todas as coisas, e por tua vontade é que existem e foram criadas.
 
 Esta adoração recorda a presença de Deus na história. Javé significa Vida, Liberdade. O começo da história da salvação começa no Êxodo, na Páscoa do Antigo Testamento. João quer comunicar para as comunidades católicas que Deus continua sendo o libertador. Para as comunidades da época - e até as atuais - medrosas e apáticas, é necessário aderir de forma eficaz ao Evangelho. Por isso todo o universo, simbolizado pelos 24 anciãos louvam e cantam as glórias do Senhor. Por isso, o homem deve dar graças a Deus, depondo suas coroas diante do trono.
 

      Este capítulo 4 quer trazer otimismo e esperança, com a certeza da vitória para todos aqueles que aderirem definitivamente ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

10. Os Sete Selos (Ap 5,1-14)

       Neste capítulo 5 temos João apresentando a história. Leia atentamente e analise as interpretações.

1. Eu vi também, na mão direita do que estava assentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos.

Aqui João apresenta a história.  A história é como se fosse um livro, escrito como se fazia antigamente com os pergaminhos, por dentro e por fora. A expressão sete selos significa bem fechado, indecifrável. Estes sete selos também representam sete etapas da história da salvação.  João mostra que existem quatro que já aconteceram antes dele, a quinta corresponde ao seu tempo (tempo de perseguições), a sexta acontecerá depois dele, onde os dominadores serão dominados e a última será a consumação dos tempos. Nos capítulos de 6 a 8 será falado sobre cada uma dessas etapas.

2. Vi então um anjo vigoroso, que clamava em alta voz: Quem é digno de abrir o livro e desatar os seus selos? 3. Mas ninguém, nem no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro ou examiná-lo. 4. Eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro e examiná-lo. 5. Então um dos Anciãos me falou: Não chores! O Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi achou meio de abrir o livro e os sete selos.

Qual o sentido da vida? É esta a pergunta que se faz neste versículo. Desde o Antigo Testamento o homem procura o sentido da vida, o motivo de toda a história. No v. 3 conclui-se que ninguém pode conhecer este sentido. A lamentação ocorre no v.4 e só através de Jesus o sentido da história é revelado. Somente com Jesus o sentido da vida tem... sentido. A história é o plano da salvação de Deus e Jesus é o centro. Veio à Terra para vencer o pecado, a morte e pela ressurreição deu-nos a Vida.

6. Eu vi no meio do trono, dos quatro Animais e no meio dos Anciãos um Cordeiro de pé, como que imolado. Tinha ele sete chifres e sete olhos (que são os sete Espíritos de Deus, enviados por toda a terra). 7. Veio e recebeu o livro da mão direita do que se assentava no trono.

Jesus é o Cordeiro de pé. O cordeiro imolado na cruz. Chifre indica força e olhos, conhecimento. Sete quer dizer plenitude. Jesus tem força e conhecimento plenos.

8. Quando recebeu o livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma cítara e taças de ouro cheias de perfume (que são as orações dos santos). 9. Cantavam um cântico novo, dizendo: Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça;
10. e deles fizeste para nosso Deus um reino de sacerdotes, que reinam sobre a terra.
11. Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos Animais e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares,
12. bradando em alta voz: Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor.
13. E todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo que contêm, eu as ouvi clamar: Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos.
14. E os quatro Animais diziam: Amém! Os Anciãos prostravam-se e adoravam.

É a parte litúrgica desta visão. Diante do poder do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, todo o universo (= os quatro seres vivos e os 24 anciãos, como vimos no item anterior), canta louvores a Deus.

          Não adianta lamentar as dificuldades que aparecem em nossas vidas. Temos as chaves: crer e viver a vida do Ressuscitado. A peregrinação terrestre é dura, impiedosa, mas tal sofrimento nem se compara com a dor de Cristo na cruz.

11. Os quatro cavaleiros do Apocalipse (Ap 6,1-17)

            No capítulo 6 do livro, são apresentados os selos. As etapas da história humana/da salvação são reveladas. Até o sexto selo. Verifique atentamente neste quadro:

1. Depois, vi o Cordeiro abrir o primeiro selo e ouvi um dos quatro Animais clamar com voz de trovão: Vem!

Do versículo 1 ao 9 João revela as primeiras quatro etapas da história, ocorridas antes de seu tempo. Só Jesus dá sentido a história da humanidade e, portanto, só Ele pode abrir os selos.  Só Jesus pode revelar o sentido da história – abrir o primeiro selo.  São os quatro seres vivos que anunciam a abertura dos mesmos.

2. Vi aparecer então um cavalo branco. O seu cavaleiro tinha um arco; foi-lhe dada uma coroa e ele partiu como vencedor para tornar a vencer.
3. Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo animal clamar: Vem!

Os cavalos e cavaleiros representam os períodos da história humana em que se deram momentos relevantes, importantes. Estes quatro cavaleiros representam as quatro primeiras etapas da história, os quatro primeiros selos. O cavalo branco simboliza Jesus Ressuscitado, que venceu a morte. Cavalo significa força; branco significa céu, transcendência. Arco é sinal de ação rápida. Só Jesus, vencedor (ressuscitado) pode dar sentido às outras etapas da história, por isso, é o primeiro.

4. Partiu então outro cavalo, vermelho. Ao que o montava foi dado tirar a paz da terra, de modo que os homens se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

Jesus Pascal abre o segundo selo – segunda etapa importante da história humana . A função deste cavaleiro é tirar a paz da terra e promover a morte. Vermelho significa sangue derramado. Existe, portanto, na história humana, uma grande força negativa que promove a guerra, a destruidora da paz (=espada). A história do homem é marcada por guerras, exílios e violências.

5. Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro animal clamar: Vem! E vi aparecer um cavalo preto. Seu cavaleiro tinha uma balança na mão.
6. Ouvi então como que uma voz clamar no meio dos quatro Animais: Uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário; mas não danifiques o azeite e o vinho!

A função deste cavaleiro é o de falsear a realidade, promovendo injustiças. A cor preta simboliza a situação negra em que se encontra o povo. A balança lembra o desequilíbrio trazido por esta injustiça.  A história humana também é marcada por injustiças sociais, da fome à miséria. Esse mal também atingiu o povo de Israel. No v.6 vemos que os que mais sofrem com isso são os pequenos, os pobres. Trigo e cevada eram a comida dos pobres. Óleo e o vinho eram o alimento dos ricos. Denário era o salário de um dia de um trabalhador. Ou seja, o pobre nem conseguia pagar nem a metade da comida de sua família. Deus, contudo, julgará os homens e os sistemas injustos. Os bens  são de todos e não de poucos. Estes bens terrenos prefiguram os eternos. E os eternos, Deus dará a todos que os aceitarem através de seus testemunhos.

7. Quando abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que clamava: Vem!
8. E vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro tinha por nome Morte; e a região dos mortos o seguia. Foi-lhe dado poder sobre a quarta parte da terra, para matar pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras.

O Cordeiro abre também o quarto selo. A função deste cavaleiro é destruir a ¼ dos homens. Verde é a cor do cadáver, principalmente pelo efeito da peste.  Esta quarta parte indica parte considerável.  Hades (Região dos Mortos) é o nome que os gregos davam ao mundo do além.  A morte e a destruição também está presente na história do homem. O homem, por sua vez, prefere o reino da morte ao invés do reino da vida. As forças desintegradoras do 2o selo e as forças destruidores do 4o selo passarão. O 3o selo lembra que a injustiça social é promovida pelo homem e é necessário questionar, discernir os verdadeiros valores (balança). Sobre todas essas forças Jesus é vitorioso (1o selo).

9. Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. 10. E clamavam em alta voz, dizendo: Até quando tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra? 11. Foi então dada a cada um deles uma veste branca, e foi-lhes dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que estavam com eles para ser mortos.

A partir deste versículo vemos a quinta etapa da história da salvação. Representa a época que João viveu (95 d.C.). Tempo de crise de fé e de perseguição.  Os cristãos clamam a Deus, especificamente, os mártires, aqueles que deram a vida por Jesus. O altar é a história, a veste branca lembra transcendência, como já vimos. Vingar o sangue não é pedido de vingança feito a Deus, mas um apelo para que o Senhor apresse a instauração do Reino Definitivo. No v.11 vemos que a situação irá mudar. Os tormentos são temporários. O poder do mal não é para sempre.

12. Depois vi o Cordeiro abrir o sexto selo; e sobreveio então um grande terremoto. O sol se escureceu como um tecido de crina, a lua tornou-se toda vermelha como sangue
13. e as estrelas do céu caíram na terra, como frutos verdes que caem da figueira agitada por forte ventania.
14. O céu desapareceu como um pedaço de papiro que se enrola e todos os montes e ilhas foram tirados dos seus lugares.
15. Então os reis da terra, os grandes, os chefes, os ricos, os poderosos, todos, tanto escravos como livres, esconderam-se nas cavernas e grutas das montanhas.
16. E diziam às montanhas e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que está sentado no trono e da ira do Cordeiro,
17. porque chegou o Grande Dia da sua ira, e quem poderá subsistir?

 

João apresenta como será o fim da história, neste sexto selo. O bem triunfará sobre o mal. Antes do fim dos tempos o mal será eliminado. O cenário é apocalíptico, de acordo com o pensamento hebraico. Quando Deus age, a natureza se transforma. Ele chegou para julgar. Os homens, principalmente, tremem pois têm contas a ajustar. Os poderosos, os prepotentes, os arbitrários  serão humilhados e destruídos. Os cristãos, paralelamente a isto, devem suportar, permanecerem firmes na fé. O sexto selo vem mostrar essas formas de opressão que existem – ricos, políticos, banqueiros, militares – e mostrar que eles, que aterrorizaram os homens, tremerão diante de Deus.

            Resumindo, os quatro primeiros selos mostram que a Igreja caminha num mundo de lutas e desigualdades. A peregrinação é árdua e o Apocalipse questiona cada cristão, cada comunidade. Defender o pobre traz perigos. Defender a própria pele é a ideologia de hoje. Já o quinto selo representa a época das primeiras perseguições aos cristãos. A tortura, o poder social que escraviza o homem, o genocídio nos acompanham até hoje. O sexto selo lembra a vitória de Deus sobre o mal. Selo que dá esperança aos cristãos.


Fonte de Pesquisa: O Apocalipse - Explicação e Atualização, Mauro Strabeli, Ave Maria Edições.