Santa Josefina Bakhita - Por Luciano Bandeira

                Deus renova constantemente seu Amor por nós através dos Santos. Conhecendo a história  de Bakhita é impossível não se comover. As pessoas que passaram por sua vida, apesar da dor que lhe causaram, foram como que elos de uma corrente, que ia sendo formada por Deus, para levá-la ao Céu.

                Bakhita nasceu no Sudão, região de Dafur na África, no ano de 1869. Sua família era composta pelos pais e sete filhos, sendo eles muito unidos e afeiçoados.  A região onde vivia estava sempre em alerta, em função de constantes raptos de homens, mulheres e crianças para serem negociados no mercado de escravos.

                No ano de 1874, sua irmã mais velha foi raptada. A dor dilacerou o coração daquela família tão unida e feliz. “Bakhita” não foi o nome que recebera dos pais quando nasceu. No ano de 1876, com mais ou menos sete anos de idade, foi raptada e arrancada do seio de sua família. A pequena menina tomada de pavor foi levada brutalmente por dois árabes, e foram eles, que impuseram o nome de “Bakhita”, que significa: “afortunada”.

                A pequena escrava, depois de um mês de prisão, foi vendida a um mercador de escravos. Conseguiu fugir, mas foi capturada por um pastor e revendida a outro árabe. Homem feroz e cruel que, por sua vez, revendeu-a para outro mercador de escravos.  Novamente ela é vendida a um general turco, cuja esposa era terrivelmente má. A esposa do general desejou marcar suas escravas e Bakhita estava entre elas. Chamou então uma tatuadora que, com uma navalha, ia marcando os corpos das meninas que se contorciam de dores, mergulhadas numa poça de sangue. Bakhita recebeu no peito, no ventre e nos braços 114 cortes de navalha que eram esfregados com sal para que as marcas ficassem bem abertas. As jovens escravas ficaram jogadas sem tratamento e nenhum cuidado, durante um mês. Esse sofrimento absurdo e sem sentido não tirou dela o amor por seus patrões.  No final de sua vida, ela chegou a dizer que se não fossem àquelas pessoas, não chegaria até Deus. Dizia que elas não sabiam o que estavam fazendo, e as perdoou de todo coração. Impressionante a capacidade que ela tinha de perdoar e servir a todos confiando tudo a Deus.

                No ano de 1882, o general turco a vendeu ao agente consular Calisto Legnani que seria, para ela, seu anjo bom. Com ele Bakhita conheceu novamente a serenidade, o afeto e os momentos de alegria.  Em 1885 o sr. Calisto é obrigado a retornar à Itália; Bakhita pede para acompanhá-lo e obtêm consentimento. E assim partiram em companhia de um amigo, o sr. Augusto Michieli, a quem o cônsul presentearia em Gênova com a jovem africana. Chegando à Itália com seu 7º “patrão”, o rico comerciante Michieli, foi para vila Zianino de Mirano Veneto onde Bakhita se tornou babá de Mimina, a filhinha do casal. Apesar de serem pessoas boas e honestas, não eram praticantes de religião. Como sempre, Deus tem seus desígnios e acabou colocando em seu caminho, o administrador dos Michieli, Iluminato Chechini.

                Iluminato era um homem muito religioso e logo se preocupou com a formação religiosa de Bakhita; e ao dar um crucifixo a ela, disse em seu coração: “Jesus, eu a confio a Ti”.

                 Quando os Michieli tiveram de voltar para Suakin, na África, por motivos de negócios, Bakhita e a pequena Mimina ficaram aos cuidados das Irmãs Canossianas, em Veneza, e isto graças ao sr. Iluminato.

Nesta época iniciou a catequese. Depois de nove meses, a sra. Maria Turina retornou à Itália para buscar sua filhinha Mimina e Bakhita para irem de vez para África.  Naquele instante, Bakhira já encantada por Jesus, em função do conhecimento da catequese e prestes a receber os sacramentos, recusa-se a voltar para a África, apesar do afeto que nutria pela família Michieli e principalmente pela pequena Mimina. Sentia em seu coração um desejo inexplicável de abraçar a fé e vivê-la para sempre.

                Apesar dos apelos e até ameaças da Sra. Michieli, a jovem africana não cedeu e permaneceu na Itália onde não havia escravidão. Sua patroa retornou à África com sua filha, e ela prosseguiu livre e feliz com sua catequese na Itália, mesmo sabendo que aquela seria a última chance de rever seus familiares na África.

                No dia 09 de janeiro de 1890, foi batizada, crismada e recebe a 1° comunhão das mãos do Patriarca de Veneza, Cardeal Agostini. No batismo recebe o nome de Josefina Margarida Bakhita. Ela nutria em seu coração o sublime desejo de se tornar religiosa, uma Irmã Canossiana. Mais tarde, conseguiu ser aceita na congregação das Filhas da Caridade Canossianas, servas dos pobres. Depois de três anos de noviciado, no dia 08 de dezembro de 1896, pronunciou os votos de: Castidade, Pobreza e Obediência.  Depois da profissão religiosa, foi transferida para a cidade de Schio, em outra obra da Congregação, e lá permaneceu por 45 anos, onde passou a ser conhecida como a “Madre Morena”.

                Irmã Bakhita era atenciosa com todos, sem distinção, desde as crianças do colégio, seus pais, sacerdotes, com suas irmãs religiosas, etc... Sempre levando palavras de conforto, consolo e amor incondicional. Quem a conheceu jamais poderia imaginar quanto ódio teve que suportar. Ela que foi raptada, presa com sete anos sozinha por um mês, espancada várias vezes sem motivo, e que teve, como já foi dito, o corpo marcado com 114 marcas de navalha, conseguiu transformar todo esse ódio em amor. Um milagre! Não pode haver outra explicação! Um milagre! Em todas as funções que exerceu, sempre colocou seu coração doce e sincero na Igreja, na Sacristia, na portaria ou na cozinha, era tudo para todos.

                Em 1947 adoeceu e já quase sem forças e numa cadeira de rodas, passava horas em oração, em adoração e contemplação. Era o dia 08 de fevereiro de 1947, nossa Irmã Morena murmurava: “Como estou contente! Nossa Senhora! Nossa Senhora! Como estou contente!”. Já começava a sentir a presença do Céu.

                 Em seus últimos momentos, disse: “Vou-me devagarzinho para a eternidade... Vou com duas malas: uma contém os meus pecados; a outra, bem mais pesada, contém os méritos infinitos de Jesus Cristo. Quando eu comparecer diante do Tribunal de Deus, cobrirei a minha mala feia com os méritos de Nossa Senhora. Depois abrirei a outra e apresentarei os méritos de Jesus Cristo. Direi ao Pai: ‘Agora julgai o que vedes’. Estou segura de que não serei rejeitada! Então me voltarei para São Pedro e lhe direi: ‘Pode fechar a porta porque eu fico!”.

                Santa Bakhita deve sempre inspirar sentimentos de confiança na Providência, doçura para com todos e alegria em servir. Faleceu no convento canosiano de Schio, em 1947, com a idade de 78 anos; os restos incorruptos foram sepultados sob o altar da Igreja do mesmo convento. Foi beatificada em 1992, e canonizada em Roma pelo Papa João Paulo II, em outubro de 2000. O milagre que a levou a ser reconhecida como Santa aconteceu em Santos, no Brasil.

                Santos como Bakhita são enviados por Deus ao mundo para abrir nossos olhos. Está em nossas mãos decidirmos se seremos cegos para sempre.