Edith Stein, judia convertida ao catolicismo - Por Luciano Bandeira

            O Papa João Paulo II na cerimônia de Canonização de Edith Stein disse - “Sua mente  não se cansou de pesquisar, nem o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ânsia apaixonada e, no final foi premiada:  conquistou a verdade; ou antes a Verdade a conquistou. Com efeito descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo. E a partir desse momento o Verbo Encarnado foi tudo para ela”.

            Edith Stein nasceu em Breslau, Alemanha (hoje Wroklav, Polônia) em 12 de outubro de 1891.  Última de onze irmãos de uma família judia. Sua mãe era dona de casa e o pai comerciante de madeiras. O pai faleceu quando ela ainda não tinha dois anos, e a mãe teve que assumir os negócios da família. Em 1911 chegou o momento de escolher a carreira universitária. Embora houvesse algumas opções, acabou por se matricular em Filosofia na Universidade de Breslau, visando poder ter respostas para as questões que tanto a incomodavam: “De onde venho? Para onde vou? Quem sou eu?”. A filosofia lhe parecia um bom caminho para chegar a tais respostas.

            Universidade de filosofia e hospital de campanha

            No quarto semestre de filosofia de Breslau, conseguiu transferência para estudar em Gottingen, onde estavam os maiores filósofos da época.  Passou a conviver com Max Scheler, Martin Heidegger e Edmund Husserl. Edith teve bastante contato com católicos nesta época, pois Scheler, que havia se convertido ao catolicismo, vivia com grande entusiasmo sua fé. Ela começou a perceber algo de diferente e especial naquelas pessoas, mas em função dos estudos, não podia investigar a fé naquela ocasião.

            Após um semestre na universidade de Gottingen, ou seja, em seu quinto período, chegou à conclusão que deveria tentar um doutorado, e após uma entrevista bastante espinhosa com Husserl, conseguiu o esperado consentimento. Todavia, o sonho do doutorado teve que ser adiado, pois a primeira guerra mundial havia começado e ela se alistou como voluntária na Cruz Vermelha, sendo convocada para um hospital de campanha na Áustria. Apesar de toda dificuldade vivenciada neste hospital e de sua falta de experiência, recebeu uma medalha de honra ao mérito por seu serviço de amor pelos doentes.

            Defesa da tese de doutorado: Summa Cum Laude

            Após ser dispensada do hospital, era chegada a hora de voltar e retomar o doutorado. Em 03 de agosto de 1916, finalmente chegou o dia da defesa de sua tese. Iniciada às dez da manhã, a discussão da tese e das matérias do doutorado foram até às oito da noite. Depois de alguns minutos de deliberação a banca comunicou sua nota: summa cum laude, “máxima com louvor”, ou seja, a maior graduação possível. Assim, ela se tornou uma das primeiras doutoras da Alemanha. Além disso, conseguiu terminar em tempo recorde, quatro anos, quando o normal seria pelo menos oito. Não era pequeno feito o que havia conseguido!

 

            A Conversão

            Logo após concluir o doutorado, começou a trabalhar como assistente de Husserl, mas em pouco tempo, viu que aquele trabalho não renderia os frutos esperados. Sendo assim, decidiu tentar ingressar na vida universitária como professora. Apesar de sua brilhante tese, e de todo seu preparo, foi descartada em todas as universidades por ser mulher. Uma professora universitária era algo impensável naquela época! Foi uma amarga decepção. Diante disso, só lhe restou voltar para casa da mãe, onde passou os anos seguintes, de 1919 a 1921, dando aulas particulares e escrevendo artigos para a revistas.

            A providência divina começou a acontecer, quando foi passar duas semanas na casa de campo de amigos. Certa tarde, resolveu pegar alguma coisa para ler, e abriu por acaso um livro chamado: “Vida de Santa Tereza de Ávila” escrita pela própria Santa. Começou a ler e ficou tão arrebatada que não parou até terminá-lo. Quando fechou o livro disse para ela mesma: “Está é a Verdade!”. Depois disso, comprou um missal e o catecismo, e, como de costume, rapidamente leu e compreendeu tudo. No domingo foi à missa, e após o encerramento, procurou o padre dizendo que desejava receber o batismo. O padre lhe perguntou: há quanto tempo está sendo instruída na fé e por quem? Edith apenas respondeu: padre, por favor, examine-me. Com efeito, após a conversa, o padre ficou tão impressionado com ela que tratou de marcar o batismo. Agora era necessário comunicar a família, e principalmente a mãe, que tinha se convertido ao catolicismo. Não foi nada fácil, mas com o tempo sua mãe acabou aceitando.

            Palestrante brilhante e descoberta de Santo Tomás de Aquino

            Depois de convertida começou a estudar São Tomás de Aquino, e ficou tão impressionada, que dedicava todo tempo possível para estudá-lo. Fez a tradução de uma de suas obras intitulada “Controvérsias sobre a verdade” que foi publicada em dois volumes. Edith começava a ficar famosa no meio acadêmico e foi convidada para um congresso de filosofia em Paris. Era a única mulher presente! Ela desenvolvia seus pensamentos - em francês - de maneira tão brilhante que causou uma impressão extraordinária naquela assembleia de sábios. A partir daí, passou a ser convidada para fazer conferências por toda Europa. Ela falava sete idiomas fluentemente o que facilitou seus caminhos onde fosse chamada.

             Entrada no Carmelo

            Em 1933 Adolf Hitler assumiu o cargo de Chanceler e começou a pôr em pratica todas as medidas típicas de governos totalitários. Uma dessas medidas foi proibir o magistério público ou privado de não-arianos. Sendo assim, Edith ficou impedida de continuar dando aulas. Desta vez não desanimou, pois já tinha fé e confiava na providência divina. Diante de outra guerra iminente e de muitas atrocidades que se iniciavam afirmou: “o que não estava nos meus planos estava no plano de Deus. Aos olhos de Deus tudo tem sentido.” Diante da impossibilidade de dar aulas, resolveu tentar entrar no convento carmelita. Fez entrevistas e foi aceita. Entrou no Carmelo de Colônia em Agosto de 1938. Dois anos depois, sua irmã Rosa, que também já havia se convertido, também foi aceita neste mesmo convento.

            A Igreja enfrenta o nazismo e socorre os perseguidos

            É importante entender o contexto histórico em que Edith vivia, e ressaltar que a Igreja sempre condenou abertamente o nazismo. O Papa Pio XI em 1937 escreveu a encíclica Mit brennender Sorge (“Com ardente preocupação”) onde condenava o nazismo veementemente. Essa encíclica era lida em toda Alemanha durante as missas. Com a morte de Pio XI, é eleito o Papa Pio XII em 1939. Assim que a segunda guerra mundial teve inicio, ele organizou uma imensa rede assistencial, que no mundo inteiro se dedicou a levantar verbas para atender refugiados, feridos e órfãos sem olhar raça, religião ou nacionalidade. Abrigou no Vaticano, em conventos e instituições católicas milhares de judeus, ajudando-os depois a fugir para o exterior. Sobre esse trabalho da Igreja, o presidente dos Estados Unidos na época, Franklin Roosevelt, afirmou: “Pio XII foi a personalidade mundial que mais trabalhou em favor da paz e para aliviar a sorte da humanidade”. E, Albert Einstein também declarou: “Só a Igreja se pronunciou claramente contra a campanha hitlerista que suprimia a liberdade. Até então a Igreja nunca tinha chamado minha atenção; hoje, porém, expresso minha admiração e meu profundo apreço por esta Igreja que, sozinha, teve o valor de lutar pelas liberdades morais e espirituais”. No livro “Leão da Toscana” também é comprovado esse maravilhoso trabalho. O livro narra a fantástica história do ciclista italiano Gino Bartali. Ele é considerado até hoje um herói e um dos maiores atletas da história da Itália. Nesta rede de ajuda montada por Pio XII - de quem era devotíssimo-, ele arriscou sua vida para salvar a dos outros. Aproveitando-se de sua fama, ele levava documentos falsos escondidos dentro do banco de sua bicicleta, e os entregava aos judeus, de modo a facilitar suas fugas. Enquanto os EUA, o Reino Unido e outros países negavam a entrada de refugiados judeus durante a Guerra, o Vaticano emitia dezenas de milhares de documentos falsos para permitir que judeus se passassem por cristãos, escapando assim dos nazistas. E ainda há mais. A ajuda financeira de Pio XII aos judeus foi bem substancial. Cronistas judeus da época mencionam que eram vários milhões de dólares, e vale lembrar que o dólar valia bem mais do que hoje. No livro “Três Papas e os judeus” o escritor, historiador e rabino ortodoxo Pinchas Lapide afirma que a Igreja salvou em torno de 860 mil judeus. Após a guerra, o sentimento de gratidão era tão grande que muitos judeus se converteram, inclusive o Rabino-chefe de Roma, Israel Zolli. Diante de tudo que foi dito, será que faz sentido a acusação de que a Igreja se calou na segunda guerra ou que o Papa Pio XII teria sido o Papa de Hitler?

.           Judeus católicos considerados os piores inimigos

            Saindo da história geral e voltando para a narrativa da Cruz de Edith Stein... Em função da guerra e do aumento da perseguição aos judeus, Edith e a irmã conseguem permissão para se transferirem para um convento carmelita da Holanda. Nove meses depois do início da guerra a Holanda também foi ocupada pelos nazistas. Deste modo, viram-se novamente em perigo, e pediram para serem transferidas para a Suíça. Contudo, antes de conseguirem permissão, foram chamadas pelos nazistas para depor em um dos escritórios da Gestapo (polícia secreta alemã). Chegando lá, e estando no meio deles disse: “Louvado seja Jesus Cristo!”. Essas corajosas palavras, que nunca haviam sido escutadas nos escritórios do partido nacional-socialista foram entendidas como provocação, e com isso foram tratadas com muita grosseria. A partir daí, viraram carta marcada e a perseguição só aumentou. A Igreja seguia incomodando bastante no seu enfrentamento pacífico e corajoso. Num pronunciamento público, o comissário geral nazista disse: “como o clero católico não se deixa demover por nenhuma negociação, vemo-nos forçados a declarar os judeus católicos como sendo nossos piores inimigos!”. A Igreja foi intransigente, pois seguiu o conselho de Cristo: “Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno”(Mt 5,37).

            Campo de concentração e o trem que não voltou

            Após serem considerados os piores inimigos dos nazistas, foi iniciada a “caça” aos católicos judeus, Edith e sua irmã foram retiradas do convento. Elas foram enviadas para Westerbork, um lugarejo ao norte da Holanda, onde havia um campo de concentração. Uma testemunha contou que as irmãs foram recebidas a coronhadas, e mesmo assim, Edith nunca se queixou de seus sofrimentos. Outras pessoas contaram que ela era como um anjo, usando todo seu tempo para consolar o sofrimento dos outros. A realidade era terrível, e muitas mulheres verdadeiramente enlouqueciam, por terem perdido seus filhos, maridos e parentes. Edith sempre com muita serenidade ia de barraca em barraca levando sempre uma palavra de amor e consolo apesar do filme de horror daquele local. Sempre dizia: “aconteça o que acontecer, estou preparada para tudo! O Menino Jesus está aqui entre nós”. Em sete de agosto de 1942 foi enviada juntamente com um grupo de mil judeus, sendo trezentos católicos, para o campo de concentração de Auschwitz. A comunidade judaica descobriu posteriormente que, do trem que ela havia partido junto com a irmã ninguém havia regressado. 

 

             Conclusão

            Cristo já havia nos alertado de toda sorte de perseguições que teríamos que passar, e nos pedia alegria ao dizer: “Felizes sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus!”. Edith Stein enxergou e viveu essa alegria pedida por Cristo, e nos deixou uma dica para alcançá-la ao afirmar: “Os que procuram a verdade procuram a Deus, quer o admitam quer não! Quem quiser saber o que é a verdadeira felicidade, leia de novo as instruções - Bíblia – do nosso arquiteto Deus e da sua empresa Igreja”.

            Edith Stein interceda por nós!