A EUCARISTIA, A PAIXÃO, O SACRIFÍCIO DE JESUS NA CRUZ E O PLANO DE SALVAÇÃO

- Pesquisado, escrito e adaptado por Marcos Rocha

 

 

Neste estudo, mostraremos o significado real da Eucaristia, o sacramento dos sacramentos, da paixão (sofrimento) e o sacrifício de Jesus na cruz e sua relação com o plano de salvação de Deus.

Faremos uso de várias análises teológicas, como os do Pe. Estevão Bettencourt, Pe. Alberto Gambarini e o convertido Dr.Scott Hahn (ex-protestante, autor de O BANQUETE DO CORDEIRO), reproduzindo, inclusive, alguns trechos de suas obras. 

 

 

1.Instituição da Eucaristia e a Ceia Pascal Judaica

 

Pe. Alberto começa: “Jesus celebrou pela primeira vez a Eucaristia reunido com os apóstolos na noite de quinta-feira santa, véspera de sua paixão e morte. “Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão...” (1 Cor 11,23) Chama a atenção o fato de o Senhor ter escolhido a ocasião da Páscoa judaica para a última ceia: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer” (Lc 22,15). Para compreender a profundidade da vontade de Cristo manifestada nessa refeição sagrada, é necessário também conhecer o significado da ceia judaica.”

 

1.1. Ceia Pascal Judaica e os Sacrifícios Animais

 

Pe. Alberto: “A Páscoa Judaica era composta de uma série de rituais, com a finalidade de comemorar festivamente o Êxodo, isto é, a libertação dos judeus da escravidão do faraó do Egito. “Conservareis a memória daquele dia, celebrando-o com uma festa em honra do Senhor: fareis isso de geração em geração, pois é uma instituição perpétua” (Ex 12,14)

 

No tempo de Jesus, a ceia pascal judaica era preparada com muitos detalhes. Para quem estava em Jerusalém era necessário levar o cordeiro na tarde do dia da ceia ao Templo para ser sacrificado. Era tirado o sangue do animal e aspergido pelos sacerdotes no altar dos holocaustos. A carne era devolvida para ser assada e consumida na noite da ceia da Páscoa.”

 

A propósito, convém falar algo sobre sacrifícios de animais. Scott Hahn explica com maestria: “Para o antigo Israel, o cordeiro identificava-se  com o sacrifício, e o sacrifício é uma das formas mais primitivas de adoração. Já na segunda geração descrita no Gênesis, encontramos, na história  de Caim e Abel, o primeiro exemplo registrado de uma oferenda sacrifical: “Caim trouxe ao Senhor uma oferenda de frutos da terra; também Abel trouxe primícias dos seus animais e a gordura deles” (Gn 4,3-4). No devido tempo, encontramos holocaustos semelhantes oferecidos por Noé (Gn 8,20-21), Abraão (Gn 15,8-10; 22,13), Jacó (Gn 46,1) e outros. No Gênesis, os patriarcas estavam sempre construindo altares, e os altares serviam primordialmente para sacrifícios. Além dos holocaustos, os antigos às vezes derramavam “libações”, oferendas sacrificais de vinho. Entre os sacrifícios do Gênesis, dois merecem mais nossa atenção: o de Melquisedec (Malki-Sédeq, Gn 14,18-20) e o de Abraão e Isaac (Gn 22). Melquisedec surge como o primeiro sacerdote mencionado na Bíblia, e muitos cristãos ( de acordo com Hb 7,1-17) o consideram precursor de Jesus. Melquisedec era sacerdote e rei, combinação estranha no Antigo Testamento, mas que, mais tarde, foi aplicada a Jesus. O Gênesis descreve Melquisedec como rei de Shalêm, terra que depois seria “Jeru-salém”, que significa “Cidade da Paz” (Sl 76,2).  Um dia Jesus surgiria como rei da Jerusalém Celeste e, novamente como Melquisedec, Príncipe da Paz. Em conclusão, o sacrifício de Melquisedec foi extraordinário por não envolver animal algum. Ele ofereceu pão e vinho, como Jesus fez na Última Ceia, quando instituiu a Eucaristia. O sacrifício de Melquisedec terminou com uma bênção sobre Abraão.”

 

Para os israelitas, o sacrifício animal significava muitas coisas. Scott detalha:

 

“Era o reconhecimento da soberania de Deus sobre a criação: “Ao Senhor, a terra e suas riquezas” (Sl 24,1). O homem reconhecia esse fato, devolvendo a Deus o que, em última instância, era dele. Assim, o sacrifício louvava a Deus, de quem fluem todas as bênçãos.

O sacrifício era um ato de agradecimento. A criação foi dada ao homem como dádiva, mas que retribuição o homem dá a Deus (Sl 116,12)? Só devolvemos o que recebemos.

Às vezes, o sacrifício servia para ratificar solenemente um acordo ou juramento, uma aliança diante de Deus (Gn 21,22-32).

O sacrifício também era ato de renúncia e tristeza pelos pecados. O que oferecia o sacrifício reconhecia que seus pecados faziam-no merecer a morte; em lugar de sua vida, oferecia a do animal.

 

            1.2. O sacrifício de Isaac e o Sacrifício de Jesus

 

 

Este paralelismo entre Antigo e Novo Testamentos é interessante. Hahn demonstra: “O próprio Abraão revisitou Shalêm, alguns anos mais tarde, quando Deus o chamou para fazer um sacrifício definitivo. Em Gn 22, Deus diz a Abraão: “Toma o teu filho, o teu único, Isaac, que amas. Parte para a terra de Moriá, e lá oferecerás em holocausto sobre uma das montanhas que eu te indicar” (v.2). A tradição israelita, registrada em 2 Cr 3,1, identifica Moriá com o local do futuro Templo de Jerusalém. Para lá, Abraão viajou com Isaac, que carregou nos ombros a lenha para o sacrifício (Gn 22,6). Quando Isaac perguntou onde estava a vítima, Abraão respondeu: “Deus saberá ver o cordeiro para o holocausto, meu filho” (v.8). No fim, o anjo de Deus impediu que a mão de Abraão sacrificasse seu filho e forneceu um carneiro para ser sacrificado.

 

Nessa história, Israel discerniu o juramento da aliança de Deus para fazer dos descendentes de Abraão uma nação poderosa: “Juro-o por mim mesmo... Por... não teres poupado teu filho... comprometo-me... a fazer proliferar a tua descendência tanto quanto as estrelas do céu... é nela (em tua descendência) que se abençoarão todas as nações da terra” (Gn 22,16-17). Esse foi o reconhecimento de dívida que Deus deu a Abraão; também seria a apólice de seguro de vida de Israel. No deserto do Sinai, quando o povo escolhido mereceu a morte por adorar o bezerro de ouro, Moisés invocou o juramento de Deus a Abraão, a fim de salvar o povo da cólera divina (Ex 32,13-14).

 

Mais tarde, os cristãos consideraram a narrativa de Abraão e Isaac uma profunda alegoria do sacrifício de Jesus na cruz. As semelhanças eram muitas. Primeiro, Jesus, como Isaac, era filho único querido de um pai fiel. Também como Isaac, Jesus carregou morro acima a madeira para seu sacrifício, que foi consumado em uma colina de Jerusalém. De fato, o local onde Jesus morreu, o Calvário, era um dos morros da cadeia de Moriá. Além disso, o primeiro versículo do NT identifica Jesus com Isaac, ao dizer que ele é “filho de Abraão” (Mt 1,1). Para os leitores cristãos, até as palavras de Abraão se mostraram proféticas. Lembre-se de que não havia pontuação no original hebraico e pense em uma interpretação alternativa de Gn 22,8: “Deus se dá a si mesmo, o Cordeiro, para o holocausto”. O Cordeiro prenunciado era, claro, Jesus Cristo, o próprio Deus - “para que a bênção de Abraão alcance os pagãos em Jesus Cristo” (Gl 3,14; Gn 22,16-18)”

 

1.3. Ceia Pascal e as Palavras de Jesus na Última Ceia

 

Pe. Gambarini explica a ceia judaica, que Jesus irá substituir pela Eucaristia: “Os evangelhos fazem questão de acentuar que a última ceia foi realizada como uma autêntica ceia judaica: “No primeiro dia das Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: Onde queres que preparemos a ceia pascal? “(Mt 26,17

 

A ceia judaica começava com uma primeira bênção do vinho. Este primeiro cálice, servido de uma única jarra, era o símbolo da unidade de todos os presentes. Jesus, antes da consagração, também serviu este primeiro cálice: “Pegando o cálice, deu graças e disse:'Tomai este cálice e distribuí-o entre vós'”(Lc 22,17). Então tinha lugar a bênção da festa. Em continuação apresentava-se ao chefe da família a bacia e a toalha para lavar as mãos, como símbolo da purificação interior de todos os convidados. Jesus aprofundou o conteúdo desse momento introduzindo o lava-pés, ensinando aos seus apóstolos o caminho de serviço em favor do outro e da humildade: “... se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros” (Jo 13,14). E, por fim, todos comiam ervas amargas e era apresentado o pão ázimo (sem fermento). As ervas amargas molhadas em água salgada simbolizavam a dor e as lágrimas da escravidão do Egito”. Os judeus/hebreus foram escravizados no Egito e libertados por Deus, através de Moisés, no Antigo Testamento. “Provavelmente, nesse momento o Senhor faz o anúncio da traição de Judas: “Durante a ceia, disse:' Em verdade vos digo: um de vós me há de trair'. Com profunda aflição, cada um começou a perguntar: 'Sou eu, Senhor?' Respondeu Ele: 'Aquele que pôs comigo a mão no prato, esse me trairá'” (Mt 26,21-23) e lhe dá um pedaço de pão: “...Em seguida, molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes” (Jo 13,26).

 

A seguir, era dado o segundo cálice com vinho, e um dos presentes pedia ao pai de família para contar o sentido daquela refeição. De um modo simples eram explicados os principais elementos. Páscoa significa “passagem” , conforme Ex 12,26-27: “E quando vossos filhos vos disserem: que significa este rito? Respondereis: é o sacrifício da Páscoa, em honra do Senhor que,  ferindo os egípcios, passou por cima das casas dos israelitas no Egito e preservou nossas casas”. O pão é sem fermento, porque, na pressa de fugir dos egípcios , “o povo tomou a sua massa antes que fosse levedada” (Ex 12,34). O cordeiro pascal recorda a noite da primeira Páscoa, quando o sangue dele marcado nas casas dos israelitas os protegeu do anjo exterminador (Ex 12,21-23). As ervas amargas recordam a amargura dos anos de cativeiro. E terminava com uma prece de gratidão, utilizando a recitação da primeira parte do pequeno Hallel (Sl 113), ou seja, um salmo de louvor pela libertação realizada na saída do Egito.

 

Agora começava a ceia pascal propriamente dita. O pai de família abençoava e partia o pão ázimo, colocava sobre ele ervas amargas molhadas no molho e oferecia aos convidados. Aqui Jesus tomou o pão e instituiu a Eucaristia, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Depois comia-se o cordeiro pascal. E finalmente era servido o terceiro cálice, chamado de “cálice da bênção”. Esta é a hora da consagração do vinho. São Paulo fala do terceiro cálice ao perguntar: “O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? (1 Cor 10,16)”. No Evangelho de Lucas, está escrito que Jesus “tomou o cálice, depois de cear, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22,20). Recolhiam-se os restos da ceia e servia-se o quarto cálice de vinho. Encerrava-se a ceia cantando a segunda parte do Hallel (Sl 114-118).”

 

Reproduziremos os três relatos da Instituição da Eucaristia, propriamente dita.  Jesus substituiu a Ceia Pascal Judaica pela Eucaristia (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e Lc 22,19s):

 

“26. Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo.27. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos,28. porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.29. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai. (Mt 26,26-29)”

 

“22. Durante a refeição, Jesus tomou o pão e, depois de o benzer, partiu-o e deu-lho, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo.23. Em seguida, tomou o cálice, deu graças e apresentou-lho, e todos dele beberam.24. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos.25. Em verdade vos digo: já não beberei do fruto da videira, até aquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus.” (Mc 14,22-25)

 

“19. Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.20. Do mesmo modo tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós...” (Lc 22,19-20)

 

2. A Eucaristia nos relatos Bíblicos, a presença real de Jesus e fundamentação bíblica

 

Para os católicos, a Hóstia Consagrada e o Vinho Consagrado (pão e vinho) são o próprio Cristo, separados ou não, totalmente. A menor partícula de pão consagrado ou a menor gotícula de vinho consagrado são o Cristo inteiro. A isto chamamos a presença real de Jesus na Eucaristia.

 

A Bíblia fundamenta bem esta verdade. Faremos uso da bela explicação de D. Estevão Bettencourt, em seu livro “Curso sobre os Sacramentos”:

 

1º) Quando Jesus disse “Isto é o meu corpo” muito provavelmente usou o termo “carne=basar”, que, em hebraico/aramaico, indica a pessoa por inteiro, e não só o corpo físico. Jesus revelou estar dando a totalidade do seu ser: corpo, sangue, alma e divindade.

 

Obs.: BASAR – hebraico aramaico – pela mentalidade judaica significa SER POR INTEIRO. SARX – grego – a tradução é pobre, significam tecidos e células – o que não exclui a Presença Real de Jesus no discurso dele na Última Ceia, mas empobrece o significa da Eucaristia – podendo gerar conotação antropofágica, o que não é o caso.

 

2º) O termo “sangue =dam” utilizado por Jesus tem um caráter sagrado, significa “vida” e tem ligação direta com Deus, o único “Senhor da vida”.” 11. Pois a alma da carne está no sangue, e dei-vos esse sangue para o altar, a fim de que ele sirva de expiação por vossas almas, porque é pela alma que o sangue expia.(Lv 17,11)”; “23. Mas guarda-te de absorver o sangue; porque o sangue é a vida, e tu não podes comer a vida com a carne” (Dt 12,23). O sangue era usado no altar para expiação dos pecados. Para o homem, representa toda sua VITALIDADE EXISTENCIAL. Ora, Jesus  ao dizer “Isto é o meu sangue” também oferecia toda sua pessoa, neste momento, também, 2ª Pessoa da SS.Trindade, Pessoa Divina. 

 

3º) Tanto o corpo (pão) e o sangue (vinho) significavam Jesus por inteiro. Logo, a Última Ceia ministrada por Jesus antecipava o que aconteceria na Cruz, isto é, o próprio Cristo entregando sua vida para a remissão dos pecados da humanidade, para todos aqueles que cressem em Jesus como o Messias, seguissem seus mandamentos e se arrependessem de seus pecados.

-         Os Evangelhos – grego de alta cultura, com muitas expressões para  “simbolizar, representar” – Semanei

-         Os 3 evangelistas que descrevem a Última Ceia e São Paulo (Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20 e 1 Cor 11,23-26) usam EXCLUSIVAMENTE a forma grega “ESTI”, que somente significa “É”.

-         No aramaico, a língua de Jesus, escreveu-se também “isto é meu corpo” e não “representa”.

-         Não crer na Presença Real de Jesus na Eucaristia é não crer nas palavras de Jesus, na própria Bíblia.

 

 

4º) No discurso do pão da vida (Jo 6), João não quis repetir a narrativa da Instituição da Eucaristia, já apresentada por Mateus, Marcos, Lucas e Paulo (1 Cor 11,23-24), pois escreveu bem depois. Com isso, desenvolveu o significado doutrinário da determinação de Jesus, referindo-se a promessa do pão da vida. 

 

Nos vv.1-15 mostra-se o poder de Deus sobre o mistério da Eucaristia (a multiplicação dos pães); nos vv.16-21 demonstra-se o poder de Jesus sobre o corpo e os elementos da natureza para que, enfim, nos vv.22-71, Cristo pudesse discursar sobre o pão da vida, usando elementos dos quadros anteriores, anunciando que o pão será o seu próprio corpo. Em particular, Jesus propõe, nos vv.51-71 que o pão será a verdadeira carne de Cristo, penhor da vida eterna, e não mera representação, teatro ou alegoria, como afirmam os protestantes. Vejamos as expressões muito concretas do trecho 6,51-56:

 

51. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. 52. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer (phagein) a sua carne? 53. Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. 54. Quem come (ho trogon) a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. 55. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. 56. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.”

 

Agora, vamos verificar o texto original para compreender ainda mais o que já está explícito nas partes sublinhadas deste trecho supracitado.

 

No v.52 os judeus indagaram como Jesus poderia dar sua carne para comer. A expressão usada foi phagein, em grego. Jesus respondeu e insistiu na literalidade de seu discurso, - não era alegoria ou figuração - utilizando expressão ainda mais forte, o verbo trogô, que significa  mastigar, dilacerar com os dentes, num realismo extremo.

 

O que mais se pode dizer depois do que o próprio Jesus disse, através do Evangelho de João? A Eucaristia não é mero simbolismo. É o próprio Jesus, em corpo, sangue, alma e divindade. Carne=basar significando a pessoa por inteiro; sangue=dam significando  a pessoa com  toda sua vitalidade existencial... como desvirtuar tais frases do Mestre?

 

Muitos perguntarão: então qual o significado semita (hebraico) das verbos “phagein” e “ho trogon”? Pois bem, “comer a carne” de alguém significaria “ofender essa pessoa, perseguí-la até a morte” (Sl 26,2), “beber o sangue de alguém” significaria “arder de ódio para com tal pessoa”... Ora, está claro que Jesus, em Jo 6,54, não poderia convidar os ouvintes para o ódio para com o Mestre, prometendo em troca vida eterna. Seria absurdo e o oposto de toda a mensagem de Jesus! Além do mais, vimos que os discípulos, no v. 52 estavam pensando na literalidade do discurso de Jesus. Em outras vezes, quando Jesus queria ser entendido metaforicamente, figuradamente, o Senhor assinalava, como em Jo 11,11-14 e Jo 3,4s, por exemplo:

 

11. Depois destas palavras, ele acrescentou: Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo. 12. Disseram-lhe os seus discípulos: Senhor, se ele dorme, há de sarar. 13. Jesus, entretanto, falara da sua morte, mas eles pensavam que falasse do sono como tal. 14. Então Jesus lhes declarou abertamente: Lázaro morreu.” (Jo 11,11-14)

 

4. Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? 5. Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus.6. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito.7. Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo.” (Jo 3,4-7)

 

No v.51 Jesus disse “51. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.” Onde Ele deu o pão como sendo a sua carne? No cenáculo durante a Última Ceia: 26. Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo.” (Mt 26,26) . A afirmação “E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo” como já dito, provocou a reação dos judeus, realmente porque pensavam na literalidade. Para os mesmos, era algo grave e escandaloso, expressamente proibido beber sangue: 10. A todo israelita ou a todo estrangeiro, que habita no meio deles, e que comer qualquer espécie de sangue, voltarei minha face contra ele, e exterminá-lo-ei do meio de seu povo.” (Lv 17,10)

Jesus, então, insistiu na literalidade do discurso, dizendo que (v.54) “quem dilacera, mastiga com os dentes (ho trogon) minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.”

 

 

 

5º) Jesus manteve sua posição, mesmo após vários ouvintes o abandonarem (v.66): 

 

 

57. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. 58. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.59. Tal foi o ensinamento de Jesus na sinagoga de Cafarnaum.60. Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: Isto é muito duro! Quem o pode admitir?61. Sabendo Jesus que os discípulos murmuravam por isso, perguntou-lhes: Isso vos escandaliza ?62. Que será, quando virdes subir o Filho do Homem para onde ele estava antes?...63. O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida.64. Mas há alguns entre vós que não crêem... Pois desde o princípio Jesus sabia quais eram os que não criam e quem o havia de trair.65. Ele prosseguiu: Por isso vos disse: Ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lho for concedido.66. Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele.67. Então Jesus perguntou aos Doze: Quereis vós também retirar-vos?68. Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. 69. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus!” (Jo 6,57-69)

 

Se o discurso fosse em tom figurado, metafórico, os discípulos não o achariam duro, difícil para ser admitido. Jesus manteve a literalidade do discurso do pão da vida e foi interrogar os apóstolos a respeito. Pedro, com certeza, inspirado pelo Espírito Santo, em nome dos apóstolos, afirmou que acreditava na instituição da Eucaristia, pois só Jesus tinha “as palavras da vida eterna” (Jo 6,68c)

 

6º) O versículo 63, aparentemente pode causar dificuldades. Jesus diz “63. O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida.”  Jesus apenas tratava de remover um entendimento grotesco de suas palavras. Não se tratava de comer carne humana (isto não santifica o homem) nem de comer a carne do Senhor em condições terrestres (como o canibalismo), mas de receber a carne de Cristo GLORIFICADA, EMANCIPADA DAS LEIS DO ESPAÇO E DO TEMPO. É a carne nestas circunstâncias que Jesus chama de “espírito”, é espírito porque está toda penetrada na Divindade (na verdade, é a Divindade de Jesus que, mediante a carne, vivifica os fiéis na Eucaristia e não a carne humana de Jesus). Por isto, Jesus ao dizer “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue” não se referia somente a carne, mas a totalidade de seu ser, corpo e sangue, alma e divindade (como já vimos). Na própria Bíblia, no Novo Testamento, temos noção de corpo glorificado, corpo-espírito ou corpo espiritual.  Não deixa de ser corpo, Jesus não é incoerente, trata-se de um corpo emancipado das leis do espaço e do tempo, ressuscitado.

 

20. Nós, porém, somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,21. que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura.” (Fl 3,20-21) 

41. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade.42. Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível;43. semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso;44. semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual.” ( 1 Cor 15,41-44)

 

A Palavra de Deus é perfeita, não? Por esta razão não é correto dizer que a Missa renova o sacrifício de Jesus na cruz. Na verdade, repete-se a Última Ceia e torna-se “presente” o sacrifício de Jesus na cruz, a entrega de seu corpo glorificado. Porque este corpo está emancipado das leis do espaço e do tempo, embora, com a impassibilidade suspensa. Trata-se, inclusive, da Pessoa Divina de Jesus, de Jesus, por inteiro.

 

7º) Para João Paulo II, nosso saudoso Papa, a Igreja é feita de Eucaristia.  Realmente, a Eucaristia é o ápice da ordem sacramental. O Batismo é dirigido à Eucaristia, de modo que esta é o centro de toda a vida da Igreja e de cada um dos fiéis. É a perpetuação do sacrifício que Cristo ofereceu a sós no Calvário outrora e que, atualmente, através dos sinais sagrados, oferece com sua Igreja. Ora, se a Igreja tem como cabeça Jesus, esta só pode se alimentar do próprio Cristo, que é realmente a Eucaristia, alimento da vida espiritual, sacramento dos sacramentos.

 

Scott Hahn diz: “A centralidade da Eucaristia está evidente também na descrição concisa que os Atos dos Apóstolos fazem da vida na Igreja primitiva: 42. Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações.”(At 2,42). A primeira epístola aos Coríntios (c.11) contém um verdadeiro manual de teoria e práticas litúrgicas. A carta de São Paulo revela sua preocupação em transmitir a forma exata da liturgia, nas palavras da instituição tiradas da Última Ceia de Jesus: “23. Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão 24. e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim. 25. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim.” (1 Cor 11,23-25). Paulo ressalta a importância da doutrina da presença real e vê conseqüências funestas na descrença: 29. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação.” ( 1 Cor 11,29).

 

A real presença de Jesus na Eucaristia é claríssima! Nos quatro evangelhos e nas cartas de São Paulo, o 13º apóstolo! 

 

3. O sacrifício de Jesus na cruz e a Salvação da Humanidade

 

Jesus se entregou por nós, para a remissão dos pecados.  Este papel é o do personagem misterioso profetizado pelos profetas do Antigo Testamento conhecido como Servidor ou Servo de Javé. Aliás, por toda a vida pública, Cristo demonstrou que se identificava como o Servo de “Javé” (=Deus Pai) e os primeiros cristãos o compreenderam plenamente, neste sentido. Vamos conhecer as profecias, por exemplo, de Isaías:

 

1. Eis meu Servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda a minha afeição, faço repousar sobre ele meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião.2. Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas.3. Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião; não desanimará, nem desfalecerá,4. até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra, e até que as ilhas desejem seus ensinamentos.” (Is 42,1-4)

 

1. Ilhas, ouvi-me; povos de longe, prestai atenção! O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome.2. Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra de sua mão. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua aljava.3. E disse-me: Tu és meu servo, (Israel), em quem me rejubilarei.4. E eu dizia a mim mesmo: Foi em vão que padeci, foi em vão que gastei minhas forças. Todavia, meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa.5. E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu Servo, para trazer-lhe de volta Jacó e reunir-lhe Israel, (porque o Senhor fez-me esta honra, e meu Deus tornou-se minha força).6. Disse-me: Não basta que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel; vou fazer de ti a luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo.”(Is 49,1-6)

 

4. O Senhor Deus deu-me a língua de um discípulo para que eu saiba reconfortar pela palavra o que está abatido. Cada manhã ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo;5. (o Senhor Deus abriu-me o ouvido) e eu não relutei, não me esquivei.6. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros.7. Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado.8. Aquele que me fará justiça aí está. Quem ousará atacar-me? Vamos medir-nos! Quem será meu adversário? Que se apresente!9. O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me? Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá.” (Is 50,4-9)

 

13. Eis que meu Servo prosperará, crescerá, elevar-se-á, será exaltado.14. Assim como, à sua vista, muitos ficaram embaraçados - tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana -,15. assim o admirarão muitos povos: os reis permanecerão mudos diante dele, porque verão o que nunca lhes tinha sido contado, e observarão um prodígio inaudito.c. 53 1. Quem poderia acreditar nisso que ouvimos? A quem foi revelado o braço do Senhor?2. Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos.3. Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele.4. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado.5. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniqüidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas.6. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho; o Senhor fazia recair sobre ele o castigo das faltas de todos nós.7. Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. (Ele não abriu a boca.)8. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender sua causa, quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo?9. Foi-lhe dada sepultura ao lado de fascínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira.10. Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento; se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório, terá uma posteridade duradoura, prolongará seus dias, e a vontade do Senhor será por ele realizada.11. Após suportar em sua pessoa os tormentos, alegrar-se-á de conhecê-lo até o enlevo. O Justo, meu Servo, justificará muitos homens, e tomará sobre si suas iniqüidades.12. Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados.” (Is 52,13-53,12)

 

Belíssimo, não? O profeta Isaías escreveu estas profecias, inspiradas por Deus, entre 700-400 a.C. E elas aconteceram na pessoa de Jesus, em 33, 34 d.C. É a própria Bíblia, provando, biblicamente, o poder transcendental das suas sagradas linhas. Em Mc 1,11 (batismo de Jesus); Mt 8,17(carregou nossas enfermidades); Mt 12,18-20 (a mansidão do servo); Mc 10,45 (“não vim para ser servido...”); Jo 12, 37s (a incredulidade dos ouvintes); At 3,13-26; 4,27-30; 8,32; 13,47; Rm 15,21; Fl 2,7; 1 Pd 2,21-25 etc. é mostrado características outrora profetizadas sobre o Servo de Javé e que se encaixam perfeitamente na vida de Jesus. Em Is 7,10-25 temos o Messias como Emanuel (Deus Conosco), que nasce de uma "virgem". Em Is 9,1-7 temos a confirmação de que se trata de um "Deus forte". Em 11,1-9 Isaías profetiza que o Messias viria do tronco de Davi. Impressionante, aproximadamente 700-400 anos antes, um profeta, inspirado por Deus, prediz várias coisas que aconteceriam com Jesus. É a Palavra de Deus em forma humana, não?

 

Jesus antecipou este sacrifício como Servo de Javé, instituindo a Eucaristia, foi também uma ação profética sua, tornando sempre presente o seu gesto a todas as gerações futuras, chamadas a participar desta mesma entrega. Jesus substituiu o cordeiro imolado na Páscoa Judaica por si mesmo.  Ele é o verdadeiro Cordeiro de Deus, único capaz de trazer aos homens a redenção profetizada por Isaías. Foi assim que os cristãos entenderam o sacrifício de Jesus, como diz São em 1 Cor 5,7: “7. Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.” 

 

João Batista já o apontava como “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,20). É justamente o sangue deste cordeiro que sela a Nova e Definitiva Aliança de Deus com os seres humanos. Jesus confirma tudo isto nas palavras proferidas na Última Ceia. Inclusive no discurso do pão da vida, narrado por João: “51. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.” Jo 6,51. São Paulo repete em 1 Cor 11,24:“24. e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim.”

 

Logo, como já vimos, Jesus é o nosso alimento, o Pão da Vida. Ele institui a Eucaristia (o maior dos presentes) para nos ajudar a crescermos como cristãos e vivermos em comunhão (comum união) com Deus e com os irmãos. A salvação de nossas vidas, a bem-aventurança permanente, a imortalidade da alma, o conhecimento de tudo ou o popularmente conhecido “céu” possui um caminho todo especial indicado por Jesus: a Eucaristia. 

 

4. Recepção da Eucaristia, os efeitos e outros pormenores interessantes

 

Bem, depois da compreensão de que estava no plano de Deus o sacrifício de seu próprio Filho na cruz para a salvação dos homens e que este Filho antecipou tal imolação instituindo a Eucaristia, tornando sempre presente o seu gesto a todas as gerações futuras, chamadas a participar desta mesma entrega, vamos entender alguns detalhes importantes sobre o sacramento da Eucaristia.

 

1º)Quem pode receber a Comunhão Eucarística? Quem pode participar desta Ceia Sagrada? São Paulo diz em 1 Cor 11,23-29:

 

“23 Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão;

24 e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim.

25 Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.

26 Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha.

27 De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor.

28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.

29 Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor.” ( I Cor 11, 23-29)

 

Quem conhece realmente a doutrina cristã, ou seja, quem participou de uma boa catequese -sabe do valor deste sacramento- e que tenha passado pelo sacramento da confissão, pode participar desta ceia. Cada partícula deste pão consagrado é Jesus Cristo inteiro. Cada gota de vinho consagrada é Jesus Cristo inteiro. Estas afirmações estão comprovadas em 1 Cor 10,16-17. Mas o que é discernir o corpo do Senhor? É exatamente ter a certeza de que aquela hóstia consagrada se trata do próprio Jesus Cristo, é a presença corporal glorificada de Jesus Cristo diante de nós

 

E qual deve ser a preparação para participar da Comunhão Eucarística? Diante da autoridade papal, foram criados alguns requisitos importantes, retirados à luz das Sagradas Escrituras:

 

1) Acreditar na presença de Jesus na Eucaristia (I Cor 11,23-29);

2) Estar em estado de graça, ou seja, sem pecado mortal, tendo se confessado antes; (I Jo 3,24; II Cor 6,14-15; Jo 14,21-24) Jo 14,21-24: 21. Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e manifestar-me-ei a ele. 22. Pergunta-lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo? 23. Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada. 24. Aquele que não me ama não guarda as minhas palavras. A palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou.” II Cor 6,14-16: 14. Não vos prendais ao mesmo jugo com os infiéis. Que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? 15. Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial? Ou que acordo entre o fiel e o infiel?”. Jo 3,24: “24. Quem observa os seus mandamentos permanece em (Deus) e (Deus) nele. É nisto que reconhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu.” Com estas passagens vemos que devemos seguir os  mandamentos, com isso, não estando em estado de pecado mortal para podermos entrar em comunhão com Jesus, que é Luz.

3) Guardar uma hora de jejum antes de comungar. Água e remédios não quebram o jejum.

 

2º) E qual o efeito da Eucaristia? (I Cor 10,16-17; Hb 9,11-28) Observemos 1 Cor 10,16-17:

 

16. O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? 17. Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão.”

 

E Hb 9,11-28: 11. Porém, já veio Cristo, Sumo Sacerdote dos bens vindouros. E através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo),12. sem levar consigo o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue, entrou de uma vez por todas no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna.13. Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza de uma vaca, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos,14. quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo?15. Por isso ele é mediador do novo testamento. Pela sua morte expiou os pecados cometidos no decorrer do primeiro testamento, para que os eleitos recebam a herança eterna que lhes foi prometida.16. Porque, onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador.17. Um testamento só entra em vigor depois da morte do testador. Permanece sem efeito enquanto ele vive.18. Por essa razão, nem mesmo o primeiro testamento foi inaugurado sem uma efusão de sangue.19. Moisés, ao concluir a proclamação de todos os mandamentos da lei, em presença de todo o povo reunido, tomou o sangue dos touros e dos cabritos imolados, bem como água, lã escarlate e hissopo, aspergiu com sangue não só o próprio livro, como também todo o povo,20. dizendo: Este é o sangue da aliança que Deus contraiu convosco (Ex 24,8).21. E da mesma maneira aspergiu o tabernáculo e todos os objetos do culto.22. Aliás, conforme a lei, o sangue é utilizado, para quase todas as purificações, e sem efusão de sangue não há perdão.23. Se os meros símbolos das realidades celestes exigiam uma tal purificação, necessário se tornava que as realidades mesmo fossem purificadas por sacrifícios ainda superiores.24. Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus.25. E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo, como o pontífice que entrava todos os anos no santuário para oferecer sangue alheio.26. Do contrário, lhe seria necessário padecer muitas vezes desde o princípio do mundo; quando é certo que apareceu uma só vez ao final dos tempos para destruição do pecado pelo sacrifício de si mesmo.27. Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo,28. assim Cristo se ofereceu uma só vez para tomar sobre si os pecados da multidão, e aparecerá uma segunda vez, não porém em razão do pecado, mas para trazer a salvação àqueles que o esperam.”

 

Além de mais uma explicação bíblica do sacrifício definitivo de Jesus na cruz para a salvação da humanidade, observamos que, pela comunhão freqüente, bem preparada, crescemos como discípulos e missionários de Jesus, apagando nossos pecados veniais, nos preservando dos mortais e estabelecendo gradativamente uma união mais concreta entre nós, a Igreja e Cristo Jesus. Jesus é o pão da vida. Com confissões freqüentes nossa alma permanece purificada e com a Comunhão Eucarística realizada adequadamente, nos preparamos efetivamente para a vida eterna, pois, quando comungamos o Corpo de Cristo, estamos em comunhão com Ele, efetivamente, naquele momento. É uma antecipação da comunhão celestial definitiva.

 

6. O Batismo e a Confissão

 

Desde o século I d.C (90-100 d.C.), diante de toda a explanação bíblica e o preparo que devemos ter para comungar do pão eucarístico, ou seja, de Jesus Eucarístico, a confissão sacramental era altamente recomendada pela DIDAQUÉ, manual catequético do século I, antes da comunhão. Obviamente, aquele que comunga também devia ser batizado. Como comungar plenamente com Cristo sem ser filho de Deus, irmão do Salvador?

 

É o que também afirma Scott Hahn: “A fim de nos preparar para a Missa, devemos também tirar proveito do sacramento da Reconciliação, confessando nossos pecados depois de um profundo exame de consciência. Lembre-se do conselho da DIDAQUÉ, o guia litúrgico mais antigo da Igreja: devemos nos confessar antes de receber a Eucaristia para que nosso sacrifício seja puro. Embora a Igreja só exija que nos confessemos uma vez por ano, o irresistível ensinamento dos santos e papas é que nos confessemos “freqüentemente”. Que freqüência é essa? Varia de acordo com as circunstâncias e os conselhos do padre confessor. Entretanto, devemos seguir o bom exemplo dos santos, que, sabemos, confessavam-se ao menos uma vez por semana, e os mestres espirituais de mais confiança aconselham o mínimo de uma vez por mês.”

 

Aliás, a Bíblia é bem clara neste sentido:

 

27 De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor.

28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.

29 Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor.” ( I Cor 11, 27-29)

 

As palavras da Didaqué: “Ninguém coma nem beba da vossa Eucaristia, se não estiver batizado em nome do Senhor. Pois a respeito dela disse o Senhor: “Não deis as coisas santas aos cães” (9,5).

 

7. A Eucaristia e a Igreja

 

Participar da Eucaristia é participar efetivamente do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. Scott exemplifica belamente: “(...) o homem se torna templo de Deus, como Deus é o templo do homem. Adoramos, como diz o Apocalipse, “no Espírito”. Habitamos na Trindade. Agora, também, moramos na casa de Deus, a Igreja, que foi construída sobre a rocha (Mt 7,24-27; 16,19). Agora, somos chamados por seu nome (Ef 4,3-6). Agora, participamos da mesa do Senhor (1 Cor 10,21). Agora, compartilhamos sua carne e seu sangue (Jo 6,53-56). Agora, sua mãe é nossa mãe (Jo 19,26-27).”

 

“Agora, entendemos porque chamamos os sacerdotes de “padre” e o papa de nosso “santo padre” – porque eles são outros “cristos” e Cristo é a imagem perfeita do Pai. Agora, entendemos por que chamamos as religiosas de “irmã” e “madre” – porque, para nós, elas são imagens da Virgem Maria e da Mãe Igreja. Agora, mais claramente que antes, entendemos por que os santos no céu importam-se tanto com nosso bem-estar. Somos sua família! (...)”

 

Caso tenhamos dificuldade em nos relacionarmos com nossos irmãos na Igreja, até com tal padre, saiba que precisamos amá-los, suportar suas fraquezas e servi-los. Amar pessoas difíceis nos purifica. (...) Scott: “A comunhão dos santos não é apenas uma doutrina. (...) A comunhão dos santos está toda à nossa volta, com os anjos, no monte Sião, sempre que vamos à Missa.”

 

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo? A Bíblia diz que sim. E a cabeça é Cristo.

 

4. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança.5. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo.6. Há um só Deus e Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos.7. Mas a cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida do dom de Cristo,8. pelo que diz: Quando subiu ao alto, levou muitos cativos, cumulou de dons os homens (Sl 67,19).9. Ora, que quer dizer ele subiu, senão que antes havia descido a esta terra?10. Aquele que desceu é também o que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas.11. A uns ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores,12. para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do corpo de Cristo,13. até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo.14. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores.15. Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a cabeça, Cristo.16. É por ele que todo o corpo - coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria - efetua esse crescimento, visando a sua plena edificação na caridade.” (Ef 4,4-16)

 

8. As relações entre o Monte Sião, a Eucaristia, a Missa, o Céu e o livro do Apocalipse

 

Scott Hahn faz uma bela interligação entre o monte Sião, a Eucaristia, a Missa e o Céu. Reproduzirei todo o pensamento, que fala por si só:

 

“(...) Onde encontrariam o Céu? Aparentemente, não muito longe da antiga Jerusalém. A  Epístola dos Hebreus diz:21. E tão terrível era o espetáculo, que Moisés exclamou: Eu tremo de pavor (Dt 9,19).22. Vós, ao contrário, vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos,23. da assembléia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição,24. enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloqüência que o sangue de Abel.”  Esse pequeno parágrafo resume nitidamente todo o Apocalipse: a comunhão dos anjos e santos, a festa, o julgamento e o sangue de Cristo. Mas onde isso nos deixa? Exatamente onde o Apocalipse nos deixou: “1. Eu vi ainda: o Cordeiro estava de pé no monte Sião, e perto dele cento e quarenta e quatro mil pessoas que traziam escritos na fronte o nome dele e o nome de seu Pai. (Ap 14,1)”  Parece que todos os nossos caminhos levam à cidade do rei David, o monte Sião. Na antiga aliança, Deus abençoou abundantemente Sião: 6. Sou eu, diz, quem me sagrei um rei em Sião, minha montanha santa.(Sl 2,6)”. Em Sião, Deus estabeleceu a Casa real de David, e esse reino duraria para sempre. Ali, o próprio Deus habitaria para sempre entre seu povo.

 

Lembre-se que foi também em Sião que Jesus instituiu a Eucaristia e o Espírito Santo desceu em Pentecotes. Assim, a “montanha santa” foi ainda mais favorecida na segunda revelação. A última Ceia e o Pentecostes foram os dois acontecimentos que selaram a Aliança.

 

Observe, também, que o resto de Israel, os cento e quarenta e quatro mil de Apocalipse 14, aparece no monte Sião – embora em Apocalipse 7 ele apareça na Jerusalém Celeste. É uma discrepância estranha. Onde ele estava, realmente: em Sião ou no céu? Volte a Hebreus 12, para encontrar a resposta: “vós vos aproximastes da montanha de Sião... a Jerusalém Celeste”, pois as acontecimentos que ali tiveram lugar trouxeram a união entre o céu e a terra.

 

A Igreja construída no local desses acontecimentos subsistiu, mas só como sinal. Para os cristãos da Judéia, o local da sala superior era a “igrejinha de Deus”, dedicada ao rei David e a são Tiago, o primeiro bispo de Jerusalém. Era uma “igreja doméstica”, onde os fiéis se reuniam para partir o pão e rezar. Entretanto, mais do que isso, Sião era o símbolo vivo da nova aliança e, assim, foi preservada para sempre no livro do Apocalipse. Sião é o símbolo de nosso ponto de contato terreno com o céu.

 

Hoje, embora estejamos a milhares de quilômetros daquele pequeno monte em Israel, lá estamos com Jesus, na sala superior, e estamos lá com Jesus no céu, sempre que vamos à missa.”

 

Por que Scott afirma isto? Porque a Eucaristia, como já dito várias vezes, torna “presente” o sacrifício de Jesus, que foi antecipado pelo Mestre na Última Ceia.

 

Mas o que podemos dizer sobre o Apocalipse e sua relação com a presença real de Jesus na Eucaristia? Novamente, passo a palavra para Hahn:

 

“No Apocalipse, João alude às grandes provações que os cristãos enfrentavam em sua época. Como ele raramente cita nomes – e jamais nos fala de datas, exceto para dizer que era “o dia do Senhor” -, os intérpretes apresentam uma longa lista de candidatos às tribulações do Apocalipse: a queda de Jerusalém e a destruição do Templo (70 d.C.); a sangrenta perseguição praticada pelo imperador Nero (64 d.C.); a perseguição posterior pelo imperador Domiciano (96 d.C.); a perseguição anterior dos cristãos pelos judeus (décadas de 50 e 60 d.C.).

 

Naturalmente, em certo sentido – um sentido espiritual -, todas essas interpretações são verdadeiras, porque o Apocalipse realmente oferece apoio a todos os cristãos que passam por provações ou perseguição, de qualquer tipo. Mas em sentido literal o Apocalipse trata primordialmente, creio, da queda de Jerusalém.

 

Desde o começo, o Apocalipse tem um tom iminente: “1. Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve”. (Ap 1,1) . A mensagem repete-se por todo o livro: “Venho em breve”  (1,1.3; 3,11; 22,6-7.10.12.20). O próprio Jesus mencionou que voltaria em breve, antes até que se passasse uma geração depois de sua ressurreição.“... 28. Em verdade vos declaro: muitos destes que aqui estão não verão a morte, sem que tenham visto o Filho do Homem voltar na majestade de seu Reino. (Mt 16,28)”; “...34. Em verdade vos declaro: não passará esta geração antes que tudo isto aconteça.” (Mt 24,34)”

 

Isto causa muita perplexidade. Teria Jesus sido incoerente ao falar tais coisas? Scott explica:

 

“Hoje, muitos de nós associamos o “em breve” à segunda vinda de Jesus no fim do mundo. E isso é certamente verdade; João e Jesus falavam do fim da história. Entretanto, creio que também falavam – e primordialmente – do fim de um mundo: a destruição do Templo de Jerusalém e com ela o fim do mundo da antiga aliança, com seus sacrifícios e rituais, suas barreiras aos pagãos e suas barreiras entre o céu e a terra. Porém, a parusia (ou vinda) de Jesus devia ser mais que um fim, devia ser um começo, uma nova Jerusalém, uma nova aliança, um novo céu e uma nova terra.

 

João e Jesus referem-se não só a uma PARUSIA ou volta distante, mas à CONTÍNUA PARUSIA de Jesus, que realmente aconteceu na PRIMEIRA GERAÇÃO CRISTÃ, como ainda acontece HOJE. Não devemos nos esquecer de que o sentido original do grego PARUSIA é “PRESENÇA” e a PRESENÇA DE JESUS É REAL E PERMANENTE NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DA EUCARISTIA. Assim, quando João e Jesus disseram “em breve”, creiam que o disseram bem literalmente, pois a Igreja é o reino que já começou na terra, o lugar da parusia (presença) em todas as missas.”

 

Como Deus é fantástico! Como Deus é extraordinário! Sua Palavra tem inúmeras revelações que se complementam. A Eucaristia já é a volta de Jesus. Com o fim da Antiga Aliança, começa a Nova com a Eucaristia, com o sacrifício do Servidor de Javé, que levará a verdadeira religião para todas as nações, não só para os judeus. As profecias do Antigo Testamento, a vida de Jesus e o Apocalipse estão interligados no plano divino de salvação da humanidade. O Deus de Amor, que morre por nós, está presente realmente em cada missa.

 

9. O sacrifício de Jesus na cruz, a Eucaristia, o plano de salvação e a Parusia de Cristo

 

A Eucaristia é a Missa. Scott Hahn salienta: “Nossas orações e, em especial, o sacrifício da Missa são a força que impulsiona a história em direção a seu objetivo. De fato, no sacrifício da Missa, a história alcança o seu objetivo, porque ali Cristo e a Igreja celebram e consumam sua união. (...)”

 

O valor da Eucaristia é infinito, mas veremos suas particularidades mais adiante. Contudo, precisamos entender por que Jesus se sacrificou? Por que tanto sofrimento?

 

“Contamos com a ajuda do céu. Quem quer uma garantia maior? Contudo, muitas vezes queremos. Muitos cristãos ficam preocupados ao perceber que Jesus, de algum modo, “demora” para vir socorrê-los. Isso parece especialmente verdade quando vêem a decadência da sociedade. O mundo, às vezes, parece estar firmemente nas mãos de forças malignas e, apesar das orações dos cristãos, o mal permanece e até prospera”.

 

“Ainda assim, o Apocalipse de S.João mostra que são os santos e anjos que dirigem a história com suas orações. Mais que Brasília, mais que as Nações Unidas, mais que a bolsa de valores, mais que qualquer lugar que você cite, o poder pertence aos santos do Altíssimo reunidos ao redor do Cordeiro (Jesus). O sangue dos mártires clama a Deus por vingança (Ap 6,9-10) e ele lhes faz justiça agora como no alvorecer da história, quando o sangue de Abel clamou pela ira do Cordeiro contra “os magnatas... os ricos e os poderosos””(6,15-16).

 

Mas o poder dos santos é de uma ordem diferente da idéia que o mundo tem de poder, e a ira do Cordeiro difere significativamente da vingança humana. Isso parece dispensar explicações, mas é digno de nossa mais profunda contemplação, pois muitos cristãos professam crer em uma espécie de poder celestial que, analisado mais de perto, se revela o poder mundano em maior escala.

 

“Os judeus esperavam um Messias político, que arrasaria Roma. Ao contrário, Jesus promoveu uma campanha de misericórdia e amor, manifestados pelas refeições partilhadas com coletores de impostos e outros pecadores”.

 

Infelizmente, hoje muitos cristãos esperam a mesma vingança messiânica que aqueles judeus esperavam, no século I. Esperam a PARUSIA (segunda vinda de Cristo) de Jesus, onde ele esmagaria seus inimigos com grande poder (?!?).

 

A Bíblia relata a História da Salvação e ela continua nos dias atuais. Primeiramente, devemos entender que a Bíblia é a Palavra de Deus em forma humana (1 Ts 2,13). É inspirada por Deus. A doutrina Cristã é baseada na história da Bíblia.  “Toda a escritura é divinamente inspirada” ( 2Tm 3,16-17).  Ela foi escrita em hebraico, aramaico e grego. É formada por 72 livros e dividida em duas partes. A 1ª  parte da Bíblia se chama Antigo Testamento. O Antigo Testamento  fala da história do povo que Deus escolheu para fazer com Ele uma Aliança, antes do nascimento de Jesus. O AT mostra como surgiu esse povo, como viveu na escravidão no Egito, como possuiu uma terra, como foi governado, quais as relações que teve com os outros povos e nações, como organizou as suas leis e como viveu sua religião. Apresenta seus costumes, sua cultura, seus conflitos, derrotas e esperanças. O AT mostra como esse povo se comportou em relação à Aliança com Javé, o seu Deus, e qual foi o Projeto que Deus quis realizar no meio da humanidade, através desse povo. Israel foi um povo escolhido.

   O Novo Testamento (2ª  parte) apresenta a Encarnação de Jesus na terra concreta do povo de Israel. Jesus assumiu sua história, suas tradições, sua cultura e sua religião e o compromisso de realizar o Projeto do Pai. O NT apresenta a experiência e a reflexão religiosa de Jesus e dos primeiros cristãos. Com a vinda de Jesus realiza-se um Testamento Novo, uma Nova Aliança, um encontro definitivo com Deus.  

 

Sabemos que Jesus veio aperfeiçoar a Lei e os Profetas, que são o coração do Antigo Testamento. Jesus Cristo é taxativo: o Antigo Testamento estava imperfeito. E Ele, o Messias, veio aperfeiçoá-lo. Aquilo que é perfeito não precisa de complemento. Muitos espíritas e falsos profetas criam seitas exibindo novas revelações não contidas nas Sagradas Escrituras. Essas “revelações” não podem complementar nada, uma vez que Jesus trouxe uma doutrina completa, perfeita, sem necessidade de novidades e modificações.

 

17 Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas levá-los à perfeição. 18 Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. (Mt 5,17-18)

 Assim foi com a Ceia Judaica em relação à Eucaristia. Scott exemplifica os aperfeiçoamentos de Jesus sobre o judaísmo, contido no Antigo Testamento: “Israel marcava sua aliança com a circuncisão dos filhos varões no oitavo dia, a Igreja selava a nova aliança com o batismo. Israel celebrava o sábado como dia de descanso e culto; a Igreja celebrava o dia do Senhor, o domingo, o dia da ressurreição. Israel recordava a antiga Páscoa uma vez por ano; a Igreja reencenava a Páscoa definitiva de Jesus Cristo em sua celebração da Eucaristia”.

 

 Logo, com o pecado dos primeiros pais a morte entrou no mundo. Deus prometeu, então, enviar seu próprio Filho (Jesus, com a mesma natureza divina) para nos levar, com o seu sacrifício de amor, à vida eterna. Pela Eucaristia é renovada a Última Ceia e torna-se presente, de forma incruenta, o sacrifício cruento do próprio Deus na cruz. A Eucaristia, como vimos biblicamente, foi instituída pelo próprio Cristo.

 

Enfim, como acontece atualmente em nossas vidas, Deus conseguiu tirar de um mal – o pecado original – um bem ainda maior, um presente ainda maior para seus filhos, pois os dons sobrenaturais (recebidos a todos aqueles que forem salvos por Jesus) são infinitamente superiores aos preternaturais, da santidade/ justiça original. Deus não quis e não quer o mal, mas permite-o, porque não quer retirar a liberdade do homem nem teleguiar as criaturas. Afirma, porém, S. Agostinho que Deus nunca permitiria o mal no mundo se não tivesse meios em sua sabedoria para tirar do mal bens ainda maiores: “Deus julgou melhor tirar dos males bens do que não permitir mal algum”. Deus, com isso, retiraria o livre-arbítrio de seus filhos. É o que lembra São Paulo, em Rm 5,12-20:

 

12. Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram... 13. De fato, até a lei o mal estava no mundo. Mas o mal não é imputado quando não há lei. 14. No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir). 15. Mas, com o dom gratuito, não se dá o mesmo que com a falta. Pois se a falta de um só causou a morte de todos os outros, com muito mais razão o dom de Deus e o benefício da graça obtida por um só homem, Jesus Cristo, foram concedidos copiosamente a todos.16. Nem aconteceu com o dom o mesmo que com as conseqüências do pecado de um só: a falta de um só teve por conseqüência um veredicto de condenação, ao passo que, depois de muitas ofensas, o dom da graça atrai um juízo de justificação. 17. Se pelo pecado de um só homem reinou a morte (por esse único homem), muito mais aqueles que receberam a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo!18. Portanto, como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim por um único ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. 19. Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos.20. Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça.”

 

Como já dito, a História da Salvação continua a todo vapor, hoje. Hahn: “À luz do fogo divino, vemos as notícias diárias não como sons sem sentido e sem nexo, mas como uma narrativa da qual já conhecemos o fim. Todas as coisas da história – na história universal e em nossa história pessoal – concorrem para o bem dos que amam a Deus (Rm 8,28), pois Cristo é o Senhor da história, seu início (Jo 1,1) e seu fim (1 Cor 4,5).

 

Cristo está firme no comando e quer que reinemos com ele como sua esposa. Assim, precisamos lutar para obter nosso trono, mas nossa luta dificilmente é horrível. Podemos até considerá-la em termos românticos. A história é o relato da corte que Cristo faz a sua Igreja, aos poucos nos atraindo para nosso banquete de núpcias, o banquete do Cordeiro. Ele nos olha como Adão olhou para Eva e diz: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos e a carne da minha carne!” (Gn 2,23). A Igreja é, ao mesmo tempo, sua esposa e seu corpo, pois no matrimônio os dois se tornam uma só carne (Mt 19,5). Assim, Cristo olha para nós e diz: “Este é o meu corpo”.

 

Deus pretende que toda a história – quer determinados acontecimentos pareçam bons, quer pareçam maus para o “nosso lado” - nos conduza à eterna comunhão de nosso banquete de núpcias. Não devemos subestimar o desejo de Cristo de que compareçamos à festa. Lembre-se que ele é um esposo à espera da esposa. Assim, as palavras apaixonadas que disse aos apóstolos também são verdadeiras para nós: “Eu desejei tanto comer esta Páscoa convosco antes de padecer!” (Lc 22,15).

 

Nem devemos subestimar o poder de Jesus para nos conduzir à festa. Afinal de contas, ele é Deus onipotente, onisciente. A comunhão eterna com a Igreja é o que ele quer e o que deseja e é, com certeza, o que ele alcança agora mesmo. A comunhão amorosa com sua Igreja é a razão pela qual Deus se fez homem, esvaziou-se e morreu; é, aliás, a razão pela qual criou o mundo. Assim, todos os acontecimentos de todos os homens devem nos levar, de maneira inexorável, ao acontecimento que vemos de forma mística nos últimos capítulos do livro do Apocalipse.”

 

Por isto Jesus criou uma Igreja, escolhendo os 12 apóstolos, que em seguida ordenaram bispos, padres e diáconos, fazendo uso do sacramento da Ordem. Jesus instituiu sete sacramentos, sete sinais sensíveis da graça de Deus, para serem administrados pelos sacerdotes da Igreja. Os sete sacramentos são banhados no sangue do Cordeiro. Muitos dizem que a Igreja nasceu quando Jesus foi perfurado no lado, pela lança, na crucificação. Os sacramentos, enfim, são as sete formas da graça de Deus chegar até nós e santificar nossas vidas. O maior deles é a Eucaristia, pois nos alimenta com o próprio Deus. O Antigo Testamento e o Novo Testamento concorrem para o plano de salvação de Deus. O Filho de Deus veio habitar entre nós, assumiu a condição humana, exceto o pecado, sacrificou-se por nós na cruz, suspendo a impassibilidade de seu corpo glorificado, resgatando-nos -por isso o título Redentor dos homens-  com o preço de sua própria vida divina.

O que seria a teologia da cruz? Esta teologia está diretamente relacionada com a missão de Jesus: na verdade, o Deus de Amor que se fez homem e veio habitar entre nós. Veio nos mostrar a verdadeira face ou a face dourada do ser humano. Veio nos dizer: "Amigos, todo homem deve ser ASSIM... Amar o inimigo, ser humilde, dar a vida pelo irmão...”  Jesus não nos prometeu felicidade neste mundo. O sistema social, por exemplo, já estava falido bem antes de Ele se encarnar. Jesus nos prometeu um reino espiritual. Porém, antes, nos disse para amarmos uns aos outros e carregarmos nossos sofrimentos, para aprendermos com cada um deles. 

Preste atenção nestes versículos do Evangelho de Marcos:

"1. Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Cafarnaum e souberam que ele estava em casa.2. Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E ele os instruía.3. Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens.4. Como não pudessem apresentar-lho por causa da multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Jesus se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico.5. Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: "Filho, perdoados te são os pecados."6. Ora, estavam ali sentados alguns escribas, que diziam uns aos outros:7. "Como pode este homem falar assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?"8. Mas Jesus, penetrando logo com seu espírito tios seus íntimos pensamentos, disse-lhes: "Por que pensais isto nos vossos corações?9. Que é mais fácil dizer ao paralítico: Os pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? 10. Ora, para que conheçais o poder concedido ao Filho dó homem sobre a terra (disse ao paralítico),11. eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para casa."12. No mesmo instante, ele se levantou e, tomando o. leito, foi-se embora à vista de todos. A, multidão inteira encheu-se de profunda admiração e puseram-se a louvar a Deus, dizendo: "Nunca vimos coisa semelhante."" (Mc 2,1-12)

Analise. Devemos amar uns aos outros para ajudarmos os paralíticos, os enfermos, os injustiçados, os perseguidos, os desesperados a chegarem a Jesus Cristo. Solidariedade. Fazer o que quer que façam com você. Ninguém em sã consciência quer se destruir. Ame ao próximo como a ti mesmo! Pois é... com a solidariedade o paralítico chegou até Jesus, que curou-o, porque tinha fé. Não uma fé morta, que não age. O paralítico agiu e foi até Jesus. Foi curado! Mas que cura foi essa? A cura física ou a espiritual? Qual foi a mais importante? A física, como podemos ver nos versículos 8-11, serviu apenas externamente, para provar aos escribas de que se tratava do Próprio Deus. Contudo, a espiritual, esta sim, serviu para mudar drasticamente a vida daquele que tinha fé.

Jesus disse "Levanta-te, toma o teu leito e vai para casa". O leito é símbolo do sofrimento. Por quanto tempo aquele paralítico ficou inerte, incapaz de se movimentar, deitado naquele leito ? Estas palavras lembram muito bem a teologia da cruz! Jesus pede para ele continuar com o seu leito, continuar com sua cruz pelo caminho.

"Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus." (I Cor 1,22-24)  Jesus não veio trazer a paz ou a felicidade neste mundo... "Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada"  (Mt 10,34)

"6 E ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; olhai não vos perturbeis; porque forçoso é que assim aconteça; mas ainda não é o fim. 7 Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino; e haverá fomes e terremotos em vários lugares. 8 Mas todas essas coisas são o princípio das dores. 9 Então sereis entregues à tortura, e vos matarão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome." (Mt 24,6-9)

Pense nisso! Quando conversar com Deus, não peça tantas curas. Ele cura, sim. Mas que seja feita Vossa Vontade, não a sua! Peça-Lhe para ajudar-te na caminhada. Para ajudar-te a carregar suas cruzes. O sofrimento transforma as pessoas. As pessoas ficam mais piedosas, mais humildes, mais amáveis, mais tocadas com as dores do próximo. Não são egocêntricas. Preocupam-se com os problemas alheios. Colocam-se no lugar do irmão. Humildade é a virtude mais elevada! 

"24 Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me; 25 pois, quem quiser salvar a sua vida por amor de mim perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. 26 Pois que aproveita ao homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? ou que dará o homem em troca da sua vida?" (Mt 16,24-26)

Neste sentido entram também os dizeres de Scott Hahn: ” Quando adotamos o pecado e rejeitamos nossa aliança com Deus, só uma calamidade nos salva. Às vezes, a coisa mais misericordiosa que Deus faz a um beberrão, por exemplo, é permitir que destrua o carro ou seja abandonado pela esposa – qualquer coisa que o force a aceitar a responsabilidade por seus atos. O que acontece, no entanto, quando toda uma nação cai em pecado sério e habitual? O mesmo princípio entra em ação.(...) “E que proveito terá o homem em ganhar o mundo inteiro, se o paga com a própria vida?” (Mc 8,36). É melhor dizer adeus a um mundo de pecado do que se perder sem esperança de arrependimento. (...)  Se permitimos que o mundo e seus prazeres nos governem como um deus, a melhor coisa que o Deus verdadeiro pode fazer é começar a tirar as pedras que forma o alicerce de nosso mundo. (...) Levar uma vida boa não é viver livre de problemas, mas sim viver livre de preocupações desnecessárias. Catástrofes acontecem aos cristãos, do mesmo modo que coisas boas parecem acontecer aos ímpios. Porém, para um cristão praticante, até os desastres são bons, pois servem para nos purificar de nosso apego a este mundo.” A isto chamamos “teologia da cruz”.

 

Assim, pode parecer estranho o sacrifício do próprio Deus na cruz. Contudo, foi a maior prova de amor que Deus poderia nos dar. O oposto seria nos retirar o livre-arbítrio e nos transformar em “filhos-robô”, fazendo o bem mecanicamente. Com seu sacrifício, resgatou toda a humanidade, provou que mesmo sendo Deus (sem pecados, perfeito), o sofrimento foi “Positivo”. Enquanto isto, nós, com a vida mortal, aprendemos pedagogicamente a aceitar a Deus, sem que isto seja uma obrigação, mas um presente. Além do mais, podemos aprender também com as palavras de Jesus, que...

 

... nos ensinou a não julgar o próximo;

 

14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; 15 se, porém, não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai perdoará vossas ofensas. (Mt 6,14-15)

...a entender que os fiéis, nossos irmãos, todos nós,  somos  pecadores;

12 Jesus, porém, ouvindo isso, respondeu: Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos. 13 Ide, pois, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifícios. Porque eu não vim chamar justos, mas pecadores. (Mt 9,12-13)

 

... que a paixão pelo dinheiro é um falso deus, é idolatria;

 24 Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. (Mt 6,24)

... que o melhor caminho é o de servir o próximo, o da humildade;

26 Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva;

27 e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo;

28 assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.  (Mt 20,26-28)

 

... que nossas obras são parte integrante de nossa salvação, essência do nosso julgamento;

 

15 Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. (Jo 14,15)

 

19. Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios crêem e tremem. 20. Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é estéril? 21. Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? 22. Vês como a fé cooperava com as suas obras e era completada por elas. 23. Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (Gn 15,6). 24. Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé? (Tg 2,19-24)

 

... e  que, além de todos os demais ensinamentos, por sermos cristãos, seremos duramente perseguidos neste mundo.

 

6 E ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; olhai não vos perturbeis; porque forçoso é que assim aconteça; mas ainda não é o fim.

7 Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino; e haverá fomes e terremotos em vários lugares.

8 Mas todas essas coisas são o princípio das dores.

9 Então sereis entregues à tortura, e vos matarão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome. (Mt 24,6-9)

 

 

 

10. Os diversos nomes do Rito Sagrado

 

Na Bíblia existem alguns nomes que designam o Memorial do Senhor, a Eucaristia. Vamos conhecê-los:

 

1º) Em 1 Cor 11,20.33 São Paulo  usa “Ceia do Senhor”, indicando a Última Ceia de Jesus.

2º) A Ceia judaica era celebrada sempre com ação de graças. “Graça” indica “presença de Deus”. Dizer  “ação de graças”  refere-se claramente “a ação da presença de Deus”. Com isto, o nome grego Eucharistia prevaleceu.  O próprio texto bíblico diz que Jesus tomou o pão, deu graças (eucharistésas), conforme Mt 26,27; Mc 14,23; 1 Cor 11,24 e Lc 22,19. O nome Eucaristia já aparece na Didaqué, guia litúrgico cristão do século I (90-100 d.C.): “Ninguém coma nem beba da vossa Eucaristia, se não estiver batizado em nome do Senhor. Pois a respeito dela disse o Senhor: “Não deis as coisas santas aos cães” (9,5).

 

3º) Em At 2,42.46; 20,7.11; 1 Cor 10,16 vemos a expressão “fração do pão”. Conforme a ceia judaica, o celebrante após a bênção, rompia o pão para distribuí-lo. Jesus também o fez ao criar a Eucaristia (Lc 22,19).  Este termo “fração do pão” tornou-se símbolo do “Cristo Servidor”, que dá a sua vida para que nós a tenhamos em abundância. Ele se entregou para ser “rompido/quebrado” pelo sofrimento e distribuído entre todos.

 

4º) Os gregos usam também leitourgia e synaxis (congregação, assembléia) no lugar de Eucaristia. Os latinos dizem collecta (reunião).

 

5º) Já a palavra Missa vem do latim missio (ação de despedir, mandar embora).  No fim da liturgia eucarística, dizia-se aos fiéis: “Ite, Missa est” significando “ide, a despedida vos é oferecida. Segundo D. Estevão, “ (...)  a partir do século IV, o rito eucarístico inteiro passou a ser designado pelo vocábulo Missa (=despedida); no século VI tal uso era comum. Em nossos dias o nome Missa é o mais freqüente; deve lembrar ao cristão o fato de que quem termina a Eucaristia é enviado em missão; a Eucaristia há de se desdobrar na vida concreta, especialmente no apostolado, de quem dela tomou parte”.

 

11. A “repetição” da Missa e sua importância

 

A comunhão é realizada durante a Missa. Na Missa temos exame de consciência, leitura de textos bíblicos, evangelização, e a realização do sacramento dos sacramentos. Na Missa, por exemplo, a Igreja reza por todas as grandes intenções do Reino de Deus e da humanidade, assim como pelos oferentes  ou pelos fiéis presentes, unindo-se aos bem-aventurados na glória celeste. A semana tem sete dias. Deus nos chama para participarmos da Ceia do Pão da Vida apenas no domingo, durante, em média, uma hora e meia. Além de ser tão pouco o sacrifício físico de ir à igreja, trata-se de alegria profunda estar se encontrando com o próprio Deus Encarnado, presente realmente na Eucaristia. Trata-se de um grande desafio. Contudo, transpor este obstáculo é certeza de um encontro definitivo e positivo com Deus. É o maior dos santos mistérios. Sem esse alimento, nossa fé morrerá de fome. Fome de Deus.

 

Vamos agora entender a importância da Missa e a ordem de Jesus em repeti-la e o que isso significa.

 

Afinal, Jesus mandou repetir a Última Ceia? “19 E tomando pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.”( Lc 22,1-19) Jesus ordena claramente que os apóstolos repitam este gesto com as seguintes palavras relatadas.

 

Vimos, nos itens anteriores, que Jesus atribuiu  a Última Ceia o significado de sacrifício. Aliás, ao falar do sangue da nova aliança na Ceia, Jesus referia-se a Ex 24,8, quando Moisés apresenta o sangue da antiga aliança. Cristo oferecia-se como vítima para selar a Nova Aliança. A última Ceia aparece como a Nova Páscoa, que, mediante o sangue do verdadeiro Cordeiro imolado pelos pecados do mundo (Jo 1,29), faz parar os imperfeitos sacrifícios de animais do Antigo Testamento. (1 Cor 5,7; Jr 31,31-33).

 

Jesus ofereceu seu corpo e sangue imolados. Vimos claramente que Jesus não empregou termos ambíguos e metafóricos em situação tão solene. Ainda que a dúvida persistisse, bastava considerar os ensinamentos das primeiras gerações cristãs que, desde o início da Igreja, tornaram as palavras de Cristo no seu significado próprio. Jesus usou o verbo SER, não REPRESENTAR.

 

Mas espere? Jesus mandou que este sacrifício fosse repetido? Como assim?

 

Os apóstolos concluíram, junto com as primeiras gerações cristãs que, todas as vezes que renovavam a Ceia do Senhor/ Eucaristia, realizavam a oblação/sacrifício de Cristo. Mas este sacrifício não pode ser repetido, pois aconteceu uma vez por todas conforme a Carta aos Hebreus. Cristo é o Sacerdote Único que se oferece como Vítima Única e Perfeita em uma oblação definitiva ( Hb 4,14; 6,20; 7,21-28; 9,11-14.25-28; 10,12.14). Repetir o sacrifício seria fazer a mesma coisa com os muitos sacrifícios animais do Antigo Testamento. A oferta de Cristo tem valor infinito, capaz de expiar todos os pecados, passados, presentes e futuros, da humanidade (Hb 4,14; 7,27; 9,12.25-28; 10,12.14).

 

Ou seja, como já afirmamos,  a ceia torna “presente” (sem multiplicar) através dos tempos, de maneira incruenta (ou sacramental) o único sacrifício de Cristo oferecido cruentamente no Calvário no início de nossa era.

 

D. Estevão dispõe da seguinte maneira:

 

1º) Na quinta-feira santa, Jesus tornou presente de modo real, mas incruento, o sacrifício que Ele no dia seguinte devia realizar cruentamente na Cruz, tornando-o antecipadamente presente;

 

2º)Em toda missa, Jesus torna presente de modo real, mas incruento (é o corpo glorificado, emancipado das leis do espaço e do tempo, que está sendo imolado) esse mesmo e único sacrifício realizado cruentamente na Cruz;

 

Este tornar presente, realmente, sem multiplicar, sem repetir, que chamamos MISTÉRIO DA FÉ. Logo, a afirmação de que a Missa renova o sacrifício da Cruz é equivocada. A Missa torna presente, sem multiplicar o único sacrifício da Cruz, mas a Missa repete e renova a última ceia de Cristo.

 

O profeta Malaquias, em 1,11, prediz o sacrifício perfeito, puro: “11. Porque, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras. Sim, grande é o meu nome entre as nações - diz o Senhor dos exércitos.” Malaquias anunciava o sacrifício novo que substituiria os da Lei de Moisés. Os sacrifícios animais não poderiam representar adequadamente o homem perante Deus. Somente Jesus, Deus-Homem, podia oferecer ao Pai a reparação total em nome do gênero humano. Segundo a Didaqué, manual catequético do primeiro século (90-100 d.C.) a Eucaristia é este sacrifício novo, perfeito e puro profetizado por Malaquias, no Antigo Testamento.

 

12. A Missa em sufrágio dos mortos (prece pelos mortos)

 

Um pecador pode ser salvo após a morte? Cada Missa obtém para os vivos na terra as graças necessárias à sua salvação e, além disto, o sacrifício de Jesus pode ser oferecido em sufrágio pelas almas do purgatório.

O purgatório, na verdade, é o estado onde as pessoas falecidas se purificariam de suas vicissitudes e de seus pecados, onde a Graça de Deus está presente. Deus Pai auxilia os defuntos para “chegarem” ao Céu sem as mazelas de seus erros. Além disso, o conceito de purgatório foi ensinado pelo próprio Deus Filho: 

58. Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele te não arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. 59. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo.  (Lc 12,58-59)

23. Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,24. deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta.25. Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão.26. Em verdade te digo: dali não sairás antes de teres pago o último centavo.(Mt 5,23-26) 

Pe. Estevão explica a verdadeira concepção do purgatório:

“(...) o purgatório é um estado em que a misericórdia divina concede às almas que deixam este mundo em estado de graça, mas ainda portadoras das raízes do pecado que ficam geralmente mesmo após a absolvição da culpa. Estas almas não estão em castigo de tantos de tantos dias de duração, mas estão excitando mais profundo o amor de Deus, amor este que extinga os amores desregrados subsistentes na alma do falecido. (...) Em algumas almas o pecado pode estar profundamente arraigado, exigindo mais esforço para ser erradicado, em outras almas, estará menos arraigado e, por isto, pode ser mais aceleradamente eliminado(...)”

As Sagradas Escrituras ensinam que existem pecados leves (veniais) e mortais(graves). Na Missa os pecados veniais são perdoados no Ato Penitencial. Os mortais praticados em sã consciência devem ser absolvidos no sacramento da Confissão. Esta divisão de pecados está evidenciada na primeira carta de São João:

16. Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não o conduza à morte, reze, e Deus lhe dará a vida; isto para aqueles que não pecam para a morte. Há pecado que é para morte; não digo que se reze por este. 17. Toda iniqüidade é pecado, mas há pecado que não leva à morte.” ( I Jo 5,16-17)

Jesus deixa claro que pecados poderão ser perdoados no outro mundo. A este estado de purificação póstuma de pecados a Igreja denominou de “purgatório”:

“31. Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada.32. Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro.” (Mt 12,31-32)

O homem que morre, mas é bom, porém trouxe em suas almas a imperfeição de pecados veniais tem direito a uma purificação, segundo as escrituras. O nome purgatório não existe na Bíblia, entretanto sua existência é afirmada diversas vezes. É nome dado a esta purgação dos pecados menores de uma alma voltada para Deus antes de entrar no céu. Consiste em um estado de purificação, uma antecâmara do céu. O passo seguinte é a união com Deus.

Estas passagens são claríssimas! Jesus ensina que existirá uma “prisão” onde o fogo “eterno” não existe, mas haverá sim uma prestação de contas e uma purificação, uma pena a se cumprir. Este estado “temporário” chamado “purgatório” é como um túnel de purificação. A temporalidade ou intensidade desta purificação pode ser abençoada ou amenizada através do costume da missa do 7o dia.  Os cristãos podem orar pelos mortos que estavam no estado do purgatório, oferecendo a Missa pela purificação de seus pecados. É o que leciona a seguinte passagem:

 

43 Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, 44 porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, 46 era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas. (II Mc 12,43-46)

 Ora, se o inferno é eterno, assim como o céu, os mortos não seriam “libertados de suas faltas” com tal sacrifício após a morte. É evidente que se trata de uma oração pelas faltas dos mortos do purgatório, ainda mais as pequenas faltas desses mortos, como, por exemplo, em II Mc 12,38s. Isto está intimamente ligado à misericórdia infinita de Deus.

 

Sufrágio quer dizer “prece, voto”. Com isto, D. Estevão explica, “a Igreja pode oferecer preces em favor dos defuntos, pedindo a Deus que o amor realize sua obra com intensidade, vencendo a resistência que a natureza possa oferecer ao amor de Deus. Tal maneira de sufragar não atenta contra a obra salvífica de Deus, mas ainda é fruto desta mesma obra”.

 

13. Frutos da Missa / Eucaristia

 

Fazendo uso do belíssimo estudo de Pe. Estevão, adaptaremos sua análise e mostraremos os frutos da Missa. Antes de mais nada, vimos no item 12 que a Eucaristia  pode ser aplicada pelos defuntos. Mas se a Missa é o sacrifício de Cristo com valor infinito, por que se celebra várias missas por uma mesma intenção?

 

1º) O que é a Missa? Sabemos que não é rito simbólico nem novo sacrifício de Cristo, pois Jesus não volta a morrer depois de já ter ressuscitado. Na verdade, “a Missa é a própria imolação de Cristo (outrora oferecida cruentamente na Cruz), que a Onipotência Divina torna presente de maneira incruenta sobre os altares, sem que multiplique tal imolação, mas sem que por isto lhe diminua algo de sua plena realidade. A mesma oblação de Cristo realizada no pretérito deixa de pertencer ao pretérito e se faz presente. "Mistério da fé", diz a fórmula de consagração eucarística.”

 

2º) Por que Jesus criou a Eucaristia, afinal? Ele pensou em seus fiéis, associando seu sacrifício com a sua Igreja. Lembremos que no judaísmo, para pedir perdão pelos pecados, o pecador sacrificava um animal no lugar de sua própria vida. Mas tratava-se de um sacrifício imperfeito. Com a Eucaristia, não precisamos sacrificar um animal, mas o próprio Deus – que o fez por amor – juntamente conosco. “Atualmente na S. Missa Jesus oferece com a Igreja, que participa do Sacerdócio de Cristo, e se oferece com a Igreja (fiéis e clero), que participa da qualidade de Cristo Hóstia.”

 

3º) Cada missa tem valor infinito. Logo, uma “só Missa por si seria suficiente para dar a Deus todo o louvor que as criaturas lhe devem, suficiente também para apagar as culpas de todos os homens, perdoar todas as penas satisfatórias, obter todas as graças, espirituais e temporais, necessárias à salvação.“ Mas a este valor infinito não é aplicado aos homens em grau infinito. Para as criaturas, os frutos são finitos, limitados. Como a Missa não é somente oferecida por Cristo, mas também os membros do Corpo Místico de Jesus – a Igreja - , ou seja, os cristão, são associados ao oferecimento. Ora, os cristãos são ” limitados em seu espírito de ofertório ou de entrega total ao Pai. A parte de devotamento próprio que cada cristão associa a oblação de Cristo, esta sujeita as restrições que o egoísmo e a covardia provocam. Estes empecilhos, como se compreende, tornam os fiéis menos aptos a usufruir os benefícios da Redenção e, consequentemente, limitam a aplicação dos frutos da Missa”.

 

Recordemos as palavras da Oração Eucarística nº 1:  "Lembrai-vos, ó Pai, dos vossos filhos e filhas N.N. e de todos os que circundam este altar, dos quais conheceis a fidelidade e a dedicação em Vos servir. Eles Vos oferecem conosco este sacrifício de louvor por si e por todos os seus e elevam a Vós as suas preces para alcançar o perdão de suas faltas, a segurança em suas vidas e a salvação que esperam ".  Logo, é a fé e a dedicação (espírito de entrega e de amor) dos cristãos, em uns mais intensa, em outros com menor força, que os torna capazes de obter em seu favor e em favor de outrem as graças ou os frutos decorrentes do Sacrifício eucarístico.

 

D. Estevão lembra que “O S. Padre Pio XII exortava conseqüentemente os cristãos participantes da S. Missa a nutrir em si os sentimentos (os afetos íntimos) do Cristo Jesus: 

"Recordem-se todos os fiéis de que participar do Sacrifício Eucarístico é, para eles, o dever de máxima dignidade. Façam-no, pois, não de ânimo superficial ou distraído, mas tão viva e intensamente que se possam unir ao Sumo Sacerdote, segundo a palavra do Apóstolo: 'Senti em vós o que Cristo Jesus sentia... ' (FI 2,5). Assim com Cristo e por Cristo ofereçam, e com Cristo se ofereçam. Na verdade Cristo é Sacerdote, não, porem, para Si, mas em nosso favor, pois Ele oferece ao Pai Eterno os anseios e o culto de todo o gênero humano. Cristo também é Hóstia em nosso favor, pois Ele se entrega em nome dos homens pecadores. Por conseguinte, as palavras do Apóstolo 'Senti em vós o que o Cristo Jesus sentia' exigem de todos os cristãos os que, na medida do seu possível, tenham em seu intimo os afetos do Divino Redentor quando Este se imolava em sacrifício: sejam, pois, humildes e modestos em seu modo de julgar, e saibam tributar â Majestade de Deus adoração, honra, louvor e ações de graças. Além disto, os dizeres do Apóstolo pedem que cada qual assuma a condição de hóstia viva, renunciando a si mesmo para se ater ao Evangelho, pratiquem de bom ânimo obras de penitência e, em atitude de contrição, prestem expiação por seus pecados. Mais: a exortação do Apóstolo nos leva a abraçarmos todos a morte mística Com Cristo na Cruz, de tal modo que possamos repetir as palavras de São Paulo: 'Com Cristo estou pregado à Cruz' (GI 2, 19)" (Encíclica Mediator Dei II) “

 

Logo, não devemos só assistir a Missa, mas viver a Missa. A conduta ética de cada cristão deve corresponder ao sacrifício de Cristo, quanto for possível, com um Não firme ao pecado e um Sim constante ao Pai com Cristo. Devemos buscar ter um coração cada vez mais semelhante com o de Cristo, puro e repleto de amor.

 

4º) Reproduzirei a divisão feita por D. Estevão sobre os frutos da Missa. “Costumam-se distinguir três tipos de frutos decorrentes de cada celebração da S. Missa: 

a) frutos gerais, isto é, graças em benefício de toda a Igreja e de cada um de seus membros diretamente; indiretamente beneficiam também todos os homens que não pertencem à Igreja, visto que a santificação dos cristãos implica a santificação do mundo e Cristo é o Salvador de todos os homens

b) frutos especiais: são graças que tocam ao(s) celebrante(s), aos seus ministros e a todos os que assistem fisicamente ao rito eucarístico, nele tomando alguma parte. 

c) frutos especialíssimos: são graças cuja aplicação a Misericórdia Divina deixa à livre escolha dos fiéis. Por conseguinte, as pessoas interessadas podem assinalar uma finalidade particular (uma intenção especial), à qual serão aplicadas essas graças. Isto acontece precisamente quando os fiéis pedem que a Missa seja celebrada por tal defunto, por, tal aniversariante, por tal causa, em ação de graças por um favor recebido, etc. - A intenção formulada será mais ou menos beneficiada na medida da fé e da devoção dos cristãos considerados na seguinte ordem

1º) o(s) presbítero(s) ou bispo(s) que celebram a S. Missa, pois é (são) o(s) representante(s) imediato(s) da S. Igreja em tal ato litúrgico; 

2º) os fiéis que tiverem ocasionado a celebração da S. Missa, formulando a respectiva intenção ou as respectivas intenções, pois esses cristãos são, logo após o(s) celebrante(s), os oferentes mais diretos, por conseguinte os mais próximos representantes da Igreja. Daí a conveniência de que não somente peçam a celebração da Missa, mas também dela participem fisicamente presentes;

3º) os fiéis que estiverem presentes à celebração do Sacrifício, rezando com o celebrante e participando;

4º) os fiéis da Igreja universal (mesmo ausentes e longínquos), pois todos os cristãos são envolvidos nos atos litúrgicos da Igreja; são eles que constituem de maneira concreta a face humana da Esposa de Cristo.“

Diante do exposto, vemos o quanto importante é a fé e a dedicação dos fiéis que vivem a Missa. E também agora sabemos porque é prudente repetir a aplicação de uma Santa Missa pela mesma intenção: porque não podemos avaliar com precisão os efeitos produzidos por uma celebração eucarística. Se houver repetição desnecessária para aquela intenção, os frutos serão convertidos em favor das intenções gerais da Santa Mãe Igreja.

 

14. A Transubstanciação

 

O Magistério da Igreja reafirma, logicamente, a presença real de Cristo na Eucaristia. Esta presença é professada como conseqüência da transubstanciação do pão e do vinho, ou seja, da conversão da substância do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus. Deus cria tudo do nada, produz todo o ser. Na Eucaristia acontece a conversão de todo o ser, convertendo toda a substância, ou conversão substancial ou, simplesmente, transubstanciação. É preciso dizer que o pão e o vinho, em sua realidade íntima (substância), deixam de ser pão e vinho para se tornar realmente o corpo e o sangue de Jesus. Em suma, aparentemente são pão e vinho, mas SUBSTANCIALMENTE, com valor transcendental (que ultrapassa o mero plano físico), SÃO o próprio corpo e sangue glorificados de Jesus Cristo. Não é representação, trata-se de SER, não de REPRESENTAR. Mistério da fé, poder de Deus! 

 

15. Aspectos especiais da Missa

 

Fazendo uso dos estudos de Pe. Alberto, Pe. Estevão e Scott Hahn, dividiremos, em tópicos, curiosidades sobre a liturgia da Missa e a importância das mesmas:

 

1º) Aos domingos, na Missa, lemos uma leitura do Antigo Testamento, um Salmo, uma do Novo (cartas) e um trecho do Evangelho. Os católicos que participam diariamente das Missas, ouvem e meditam, ao longo de três anos, a leitura de quase toda a Bíblia!

 

2º) Nos primeiros séculos da Igreja não havia impressão. Era exatamente em uma Missa onde as pessoas se nutriam com as leituras dos evangelhos.

 

3º) A meditação (com atenção) e a leitura das Sagradas Escrituras, desde os primeiros séculos, eram uma preparação essencial para receber o pão eucarístico. Orígenes (séc.III), grande biblista da Igreja, exortava: “Vocês, que estão acostumados a participar do mistério divino, sabem, quando recebem o corpo do Senhor, protegê-lo com toda cautela e veneração, para que não caia dele nenhuma partícula, para que nada se perca da dádiva consagrada, pois acreditam, e com razão, que são responsáveis se algum pedacinho cair dali por negligência. Mas, se estão certos em preservar com tanto cuidado seu corpo, por que acham que há menos culpa em negligenciar a Palavra de Deus do que em negligenciar seu corpo?”

 

4º) A Missa se divide em Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística. Os ritos da liturgia são frases determinadas que se manifestaram através dos séculos. A liturgia cativa a pessoa, segundo Scott, “a pessoa toda: corpo, alma e espírito.Lembro-me da primeira vez em que participei de uma liturgia católica, as Vésperas em um seminário bizantino. Minha formação e meu treinamento calvinistas não me prepararam para a experiência – o incenso e os ícones, as prostrações e as reverências, o canto e os sinos. Todos os meus sentidos foram absorvidos. Depois um seminarista me perguntou: “ O que achou?” Só consegui dizer: “Agora  sei por que Deus me deu um corpo: para adorar o Senhor com seu povo na liturgia”. Os católicos não apenas ouvem o Evangelho. Na liturgia, nós o ouvimos, vemos, cheiramos e saboreamos.” A propósito da possível rotina, Scott lembra a constância: “A fidelidade a nossas rotinas é um meio de demonstrar amor. Não trabalhamos por trabalhar, ou agradecemos ou damos afeto quando estamos inclinados a fazê-lo por fazê-lo. Amores verdadeiros são amores que vivemos com constância, e essa constância se revela na rotina”. É uma dura crítica para muitos que trocam de religião em religião apenas para agradar a si mesmos, e não a Deus. Não desejam ardentemente servir a Deus, mas encontrar, talvez, o meio “mais fácil de salvação”. 

 

5º) Neste item vamos exemplificar momentos importantes na liturgia da Missa, que são extremamente bíblicos. A) Quando o sacerdote nos convida “Corações ao Alto”, neste momento, erguemos o coração para o céu.  Nas palavras do Ap 1,10; 4,1-2 somos verdadeiramente arrebatados pelo Espírito, para o céu. Devemos ver a realidade com os olhos da fé, não com os olhos materiais. B) Neste céu, vemos os anjos e santos e cantamos o cântico que os anjos e os santos proclamam à Deus. Impressionante, não? No Ocidente é o “Sanctus” ou “Santo, Santo, Santo” e no Oriente é o “Hino do três vezes santos” ou “Trisagion”. Conforme Ap 4,8; Is 6,2-3, quando cantamos este hino na Missa, estamos sendo acompanhados no céu pelos santos e pelos anjos. C) Depois temos a Anáfora ou Oração Eucarística. Obviamente, é o ápice do sacrifício. Existem muitas orações eucarísticas na Igreja, mas todas possuem os mesmo elementos. D) Na Oração Eucarística temos a EPICLESE, onde o sacerdote coloca as mãos sobre as dádivas e invoca o Espírito Santo. Trata-se de um poderoso encontro com o céu, muito mais apreciado entre os orientais. E) A narrativa da Última Ceia é, segundo Scott Hahn, e obviamente, para a Igreja, “o momento em que o Espírito e a Palavra transformam os elementos do pão e do vinho no corpo e sangue, alma e divindade de Jesus Cristo”. Agora o sacerdote relata o drama da Última Ceia, quando Jesus fez provisões para a renovação do sacrifício de sua aliança para todo o sempre. O que o Êxodo 12 foi para a Liturgia da Páscoa (Judaica), os evangelhos são para a oração eucarística – mas com uma grande diferença. As palavras da Nova Páscoa “efetuam o que expressam”. Quando pronuncia as palavras da Instituição – “Isto é meu corpo...Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança” -, o sacerdote não narra apenas, ela fala na pessoa de Cristo, que é o principal celebrante da missa. Pelo sacramento da ordem, um homem muda sua verdadeira existência; como sacerdote, torna-se “outro Cristo”. Jesus ordenou os apóstolos e seus sucessores para celebrarem a missa, quando disse: “Fazei isto... em memória de mim” (1 Cor 11,25). Observe que lhes ordenou: “fazei isto” e não “escrevei isto” ou “lede isto”. F) O memorial da missa não é algo imaginário. Trata-se do próprio Jesus em sua humanidade glorificada. Como dito anteriormente, são o corpo e sangue espirituais, glorificados de Jesus que estão sendo imolados. Ele é nosso oferecimento. Como diz a Oração Eucarística III: “Celebrando agora, ó Pai, a memória do vosso Filho, da sua paixão que nos salva... nós vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida e santidade”. G) Na Missa também são feitas intercessões. Aliás, rezamos juntamente com Jesus, ao Pai pelos vivos, pelos mortos, por toda a Igreja e por todo mundo. Preste atenção: não é um pedido simples feito ao Pai, solitário. Rezamos realmente junto com Jesus pelos vivos, pelos mortos, por toda a Igreja e por todo mundo. H) No fim da oração eucarística temos a DOXOLOGIA, um momento ímpar. O sacerdote levanta o cálice e a hóstia (=vítima), referindo-se agora como CRISTO. O padre diz “Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre”. Neste momento todos proclamam o grande Amém. No século IV d.C, nosso querido São Jerônimo dizia que, em Roma, quando se proclamava esse amém, os templos pagãos tremiam. É o SIM à real presença de Jesus na Eucaristia. I) Depois da oração eucarística, todos rezamos o Pai-Nosso, a oração que resume todo o evangelho, ensinado pelo próprio Jesus. Diante de nós, Jesus Eucarístico, o “pão nosso de cada dia”, que irá perdoar “nossas ofensas”, porque o pão eucarístico apaga todos os pecados veniais. J)  Começa o Rito da Comunhão. A palavra “comunhão”, no tempo de Cristo,, definia laço de família. Com a comunhão, renovamos nossos laços familiares com a família eterna, a Família que é Deus (Santíssima Trindade), e com a família de Deus na terra, a Igreja. L) Temos a oração do CORDEIRO DE DEUS, que recorda o sacrifício de Jesus, proclamando as palavras de João Batista (Jo 1,36). E respondemos nas palavras do centurião romano, em Mt 8,8: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”. M) Scott resume: “Na Eucaristia recebemos o que seremos por toda a eternidade, quando formos levados ao céu para nos juntarmos à multidão celeste no banquete das núpcias do Cordeiro. Na sagrada comunhão, já estamos lá. Isso não é metáfora. É a verdade metafísica (transcende o plano físico) nua e crua, calculada e exata que Jesus Cristo ensinou.”

 

6º) Existe um combate durante a missa e durante o dia-a-dia, o combate espiritual que travamos contra o mal. Scott exemplifica: “(...) talvez seja precaver-se contra o desprezo pela mulher com um perfume forte demais, ou pelo homem que canta, desafinado, a letra errada. Talvez seja conter nosso julgamento do paroquiano que vai embora antes do fim da missa. Talvez seja nos voltar para o outro lado quando começamos a imaginar até onde vai realmente aquele decote. Talvez seja rechaçar a presunção quando ouvimos uma homilia cheia de erros gramaticais. Talvez seja sorrir, compreensivo, para a mãe com o bebê que não pára de chorar.”  Durante o dia-a-dia e também durante a missa, como Hahn bem identifica, “(...) devemos olhar à nossa volta, depois de erguer o véu da simples visão humana. João revela a notícia mais estimulante para os cristãos em combate. Dois terços dos anjos estão do nosso lado, lutando com constância enquanto dormimos. São Miguel Arcanjo, o mais feroz guerreiro do céu, é nosso aliado incansável e imbatível. Todos os santos do céu clamam constantemente a Deus por nossa defesa. E no fim – o mais estimulante de tudo – nós vencemos! João vê o combate da perspectiva da eternidade; assim, ele revela o fim tão brilhantemente quanto descreve as perdas. As batalhas devastam tão encarniçadamente que os rios ficam vermelhos com sangue e corpos apodrecem amontoados nas ruas. Porém os vitoriosos entram em uma cidade com rios que correm com água da vida e com um sol que nunca se põe.(...) Padre Scupoli: “se a fúria dos inimigos é grande e seu número esmagador, o amor que Deus tem por você é infinitamente maior. O anjo que o protege e os santos que intercedem por você são mais numerosos”.”

 

7º) Na Missa estamos no céu. Esta verdade é tão antiga e Jesus a descreve. Estar no céu é entrar em comunhão definitiva com Deus. Jesus instituiu a Eucaristia e quer que estejamos em comunhão com ele (koinonia, em grego), com a Família de Deus de forma literal. O Catecismo da Igreja Católica, nº 1089, nos fala brilhantemente sobre esta maravilha: “Na realização de tão grande obra, por meio da qual Deus é perfeitamente glorificado e os homens são santificados, Cristo sempre associa a si a Igreja, sua esposa diletíssima, que o invoca como seu Senhor e por ele presta culto ao eterno Pai...(culto) que participa da liturgia celeste”. Ou seja, não é mero simbolismo, Jesus não disse representar, mas insistiu no SER. Os relatos eucarísticos de Mt, Lc e Mc, junto com o de São Paulo em 1 Cor, associados ou não com o sermão do pão da vida em Jo, demonstram cabalmente esta realidade, “mistério da fé”, mas real, transcendental, ultrapassando o mero plano físico. Trata-se da determinação do próprio Deus. Se Jesus pode transformar a água em vinho, nas Bodas de Cana, por que não o vinho em seu sangue, verdadeiramente? Já dizia Pascal, um grande pensador cristão: “Como abomino estas dúvidas de não acreditar na Eucaristia. Se o evangelho é verdadeiro, se Jesus é Deus, qual a dificuldade em crer em verdade tão sublime?” Pois bem, o Catecismo diz, é explícito, nossa liturgia participa da liturgia celeste! No nº 1136 também diz que “a liturgia é ação do Cristo TODO... os que desde agora a celebram, para além dos sinais, já estão na liturgia celeste”. Nº 1090: “Na liturgia terrestre, antegozando participamos (já) da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para qual, na qualidade de peregrinos, caminhamos. Lá, Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do Santuário e do tabernáculo verdadeiro; com toda a milícia do exército celestial cantamos um hino de glória ao Senhor...” A Missa é o céu na terra!

 

 

16. Por que Jesus Eucarístico tem a aparência de pão e vinho, apesar de ser o próprio Jesus, em corpo, sangue, alma e divindade?

 

O próprio Jesus mostra isso com a sua encarnação. Jesus é Deus e se despojou da divindade, assumindo a simples aparência e forma humanas. Da mesma forma, o mesmo Jesus Deus assumiu a aparência simples de pão e vinho. Entretanto, tanto Jesus quanto o pão eucarístico são o próprio Deus. Trata-se de um desafio para a fé (acreditar no que não se vê), mas que, lendo e examinando as determinações de Cristo, são altamente conciliares com a  razão. Já dizia Pascal, (já o citei anteriormente e repito novamente suas belas palavras) um grande pensador cristão: “Como abomino estas dúvidas de não acreditar na Eucaristia. Se o evangelho é verdadeiro, se Jesus é Deus, qual a dificuldade em crer em verdade tão sublime?”

Scott Hahn completa: “Jesus vem a nós em humildes hóstias sem gosto, e assim também o Espírito Santo às vezes opera por intermédio de um pregador monótono e sem brilho.”

17. Considerações Finais

 

1) Se a Eucaristia / Ceia do Senhor, não possui a presença real de Jesus, então Cristo é um mentiroso? As palavras de Jesus são cabais e insistem no SER, não no representar.

2) A Igreja, desde seus primórdios, no século I d.C., pregou a real presença de Jesus e a praticou na celebração da Eucaristia. Teria a Igreja então, junto com Jesus, mentido sobre a real presença até aproximadamente 1500-1525, quando surgiram os primeiros protestantes com Lutero e questionaram esta presença?

3) As passagens de Cristo afirmando a real presença Dele no pão eucarístico em Mt 26,26-29; 1 Cor 11,23-25; Mc 14,22-25; Lc 22,19s e Jo 6,51-66 são mais ou menos importantes que as alegações infundadas dos protestantes?

4) Deve-se ignorar a real presença de Jesus na Eucaristia  e aceitar o oposto dos protestantes, baseado em “achismo proveniente de empobrecimento em estudo bíblico”?

5) As profecias do Antigo Testamento (Malaquias, Isaías e outros) estão erradas? Os cristãos erraram ao afirmar que Jesus é o Servo de Javé, o Messias, o Cristo? Caso erraram, não devemos acreditar nas determinações de Jesus, que substituiu a Ceia da Páscoa Judaica  pela Ceia Eucarística?

6) A prefiguração de Melquisedec é absurda? Melquisedec era sacerdote e rei, combinação estranha no Antigo Testamento, mas que, mais tarde, foi aplicada a Jesus. O Gênesis descreve Melquisedec como rei de Shalêm, terra que depois seria “Jeru-salém”, que significa “Cidade da Paz” (Sl 76,2).  Um dia Jesus surgiria como rei da Jerusalém Celeste e, novamente como Melquisedec, Príncipe da Paz. Em conclusão, o sacrifício de Melquisedec foi extraordinário por não envolver animal algum. Ele ofereceu pão e vinho, como Jesus fez na Última Ceia, quando instituiu a Eucaristia.

7) As coincidências acontecidas no Monte Sião (estabeleceu-se ali a Casa de Davi [Jesus foi descendente de Davi e o Messias foi profetizado desta forma]; a Eucaristia foi instituída também ali, o Espírito Santo desceu em Pentecostes neste mesmo lugar (nasceu a Igreja); a carta aos Hebreus mostra que em Sião está a Jerusalém Celeste...  devem ser desprezadas?  Sião era o símbolo vivo da nova aliança e, assim, foi preservada para sempre no livro do Apocalipse. Sião é o símbolo de nosso ponto de contato terreno com o céu.

8) Se o Evangelho de Jesus  é verdadeiro, se Ele é Deus, qual a dificuldade  em crer que Jesus transformou o vinho em seu sangue e o pão em sua carne?

9) Se o cristão acredita que Jesus converteu a água em vinho, nas Bodas de Caná, por que não crer que Ele converteu o vinho no seu sangue, ainda que conserve a aparência de vinho? Ele que só curou fisicamente as pessoas para que cressem que Ele perdoa os pecados? Para Jesus não importa a transformação física, mas a transformação espiritual.

10) Frase de Pe. Roberto Lettieri, que já foi exorcista: “Vocês não tem idéia do ódio do demônio diante do Corpo de Cristo Eucarístico.”

11) A Igreja valoriza tanto a real presença de Jesus na Eucaristia e o valor infinito da Missa, que segundo cálculo de Felipe Aquino, teólogo católico, são realizadas, em todo mundo, 4 missas por segundo. Na Missa já estamos no céu! 

12) Observamos todo o valor da Missa. Ela torna “presente” o sacrifício cruento de Jesus na Cruz, de maneira incruenta (ou sacramental), e repete a Última Ceia. Jesus tem corpo glorificado (Fl  3,21; 1 Cor 15,41-44; Jo 6,63), emancipado das leis do tempo e do espaço, Pessoa Divina, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Contudo, despojou-se da divindade, suspendeu a  impassibilidade (ele já tinha seu corpo glorificado antes do sacrifício da cruz, demonstrou isto em Mt 17,1s, quando exibiu este corpo para os apóstolos Pedro, Tiago e João , e Elias e Moisés, no episódio da transfiguração) e morreu por nós. Imolamos o corpo glorificado de Jesus, mistério da fé, para o perdão de nossos pecados.

13) A liturgia da Missa é toda bíblica: cantamos o SANCTUS com os anjos e santos do Céu, lemos quase toda a Bíblia se formos a Missa todos os dias, durante três anos; participamos da Comunhão, que é o próprio Jesus; rezamos o pai-nosso, pedimos pelos vivos e pelos mortos, pela Igreja e por todo o mundo, com Jesus. E o melhor: é oferecido o próprio Deus (que tem valor infinito), juntamente com a Igreja. Enfim, estamos no céu!

14) João estaria errado ao relatar, no Apocalipse, que Jesus voltaria, em breve, antes da passagem daquela geração? A volta de Cristo (PARUSIA) não é também a real presença de Jesus na Eucaristia? Parusia também não significa presença?  A destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C não é fim do mundo da antiga aliança, com seus sacrifícios e rituais, suas barreiras aos pagãos e suas barreiras entre o céu e a terra? A parusia (ou vinda) de Jesus não é um começo, uma nova Jerusalém, uma nova aliança, um novo céu e uma nova terra? E o início não é a Igreja? Com a celebração contínua da Eucaristia, a real presença (parusia) de Jesus?

15) Cada Missa obtém para os vivos na terra as graças necessárias à sua salvação e, além disto, o sacrifício de Jesus pode ser oferecido em sufrágio pelas almas do purgatório. Isto não é maravilhoso? Podemos ajudar na salvação de nossos entes já falecidos, graças ao poder de Deus!

16) Desde o século I d.C, com a Didaqué (primeiro guia litúrgico da Igreja, de 90-100 d.C.) e os relatos de Sto Inácio de Antioquia, São Justino de Roma (132 d.C.), Irineu de Lião (séc. II d.C.) e muitos outros, a real presença de Jesus na Eucaristia (até o nome Eucaristia) já era praticada e professada como artigo de fé. É comprovação histórica clara e inequívoca.

17) E uma última consideração: o Apocalipse foi escrito por João Evangelista, assim como o Evangelho de João. Logo, possui o mesmo autor inspirado por Deus. No Apocalipse, João diz que o 666 é o número da besta (Ap 13,18): 18. Eis aqui a sabedoria! Quem tiver inteligência, calcule o número da Fera, porque é número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis.”. Curiosamente, por coincidência ou providência divina (a divisão das Sagradas Escrituras em capítulos e versículos é do século XVI d.C.), a passagem de Jo 6,66 (do evangelho escrito pelo mesmo autor do Apocalipse, que cita o número 666 como o número da Fera) menciona discípulos abandonando Jesus, justamente por causa do discurso da real presença eucarística: 58. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.59. Tal foi o ensinamento de Jesus na sinagoga de Cafarnaum. 60. Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: Isto é muito duro! Quem o pode admitir?61. Sabendo Jesus que os discípulos murmuravam por isso, perguntou-lhes: Isso vos escandaliza?62. Que será, quando virdes subir o Filho do Homem para onde ele estava antes?...63. O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida.64. Mas há alguns entre vós que não crêem... Pois desde o princípio Jesus sabia quais eram os que não criam e quem o havia de trair.65. Ele prosseguiu: Por isso vos disse: Ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lho for concedido.66. Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele.” Vale lembrar que Jesus não voltou atrás e prosseguiu com a afirmação e a doutrina da Real Presença.  Esta afirmação não é interpretação oficial da Igreja, mas proveniente de discernimento particular de um cardeal católico da França. Notadamente, o Anti-Cristo deseja ardentemente trazer a confusão, a mentira e, obviamente, esvaziar o valor da Eucaristia, ou seja, retirar a presença de Jesus na Sagrada Comunhão, assim como fazem exatamente os protestantes. Reflita sobre isso!

18) E para todos aqueles, que acham um absurdo um homem ser Deus, e ainda morrer por nós em uma cruz, para a salvação de toda a humanidade, repetimos a Palavra de Deus: "Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus." (I Cor 1,22-24)

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

 

- Curso sobre os Sacramentos, D. Estevão T Bettencourt

- Católico pode ou não pode? Por quê? 2ª parte, Pe. Alberto Gambarino, edt. Ágape

- O Banquete do Cordeiro, a missa segundo um convertido, Scott Hahn, Edições Loyola

- Catecismo da Igreja Católica