São José de Anchieta, o apóstolo do Brasil - Por Luciano Bandeira

Disse Jesus: “todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe,

mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”. Confiando

nessa promessa de Cristo, despediu-se do pai com as palavras: “Adeus papai. Nos

veremos novamente no céu!”.

             José de Anchieta, nascido na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, em

19 de Março de 1534, era filho de João López de Anchieta e de Mência Diaz de Clavijo,

descendente da nobreza canária. Seu pai era um grande devoto da Virgem Maria. Aos

14 anos saiu de casa para estudar em Coimbra, Portugal. Aos 17 anos, diante do

quadro de Nossa Senhora do Bom conselho na Catedral de Coimbra, fez seu voto de

castidade, consagrando sua virgindade a Nossa Senhora. Entrou para companhia de

Jesus inspirado na vida de São Francisco Xavier. Anchieta teve tuberculose óssea o que

o deixou com escoliose. Em função desse problema na coluna temeu não poder

corresponder à vida missionária dos jesuítas. Todavia, convidado pelo Padre Manoel

da Nóbrega, decidiu partir para o Brasil onde o clima mais ameno poderia ser favorável

a sua saúde. Vemos que a doença de Anchieta foi ação da providência divina para a

evangelização do Brasil. Durante a longa viagem de dois meses para o Brasil começou a

se sentir melhor e cuidar de seus companheiros. Esse serviço de amor ao próximo foi

constante durante toda sua vida.

                         Fundação da Cidade de São Paulo

            Anchieta chegou inicialmente em Salvador onde permaneceu por pouco

tempo, seguindo posteriormente para São Paulo. Em 1554 visando melhorar a

catequização dos índios e também dos portugueses, fundou junto com Padre Manoel

da Nóbrega o colégio São Paulo em Piratininga. O Colégio foi fundado no dia 25 de

Janeiro, dia da conversão do Santo. Inicialmente, nos arredores do colégio havia

apenas 130 pessoas. A comunidade vivia de maneira muito virtuosa. As pessoas

acordavam cedo e iam para Igreja, as crianças rezavam o rosário e na missa homens e

mulheres comungavam com muita devoção. Os moradores faziam penitências, vigílias,

procissões e orações. Dessa pequena comunidade próxima ao colégio, nasceu a cidade

de São Paulo.

                         Todo esforço para levar almas para Cristo

            Em apenas três anos o jovem Anchieta aprendeu tão bem o Tupi que escreveu

uma gramática. Ele catequizava as crianças em Tupi de maneira tão convincente que as

próprias crianças passaram a fiscalizar os pais, para que eles não pecassem. Os jesuítas

não batizavam as pessoas de maneira indiscriminada como é defendido por muitos

historiadores. O batismo não era concedido facilmente, pois queriam ter certeza que

os índios não voltariam a praticar seus antigos costumes pagãos. Para ser ainda mais

eficiente na evangelização, começou a compor músicas e peças de teatro em tupi,

onde explicava os mistérios sagrados e a vida de Jesus. Não media esforços para levar

as pessoas para Cristo e para a Igreja.

 

                        Na dificuldade, o socorro da Virgem Maria

            Os franceses estavam tentando estabelecer uma colônia no Brasil, a

chamada França Antarctica. Como não havia tropas suficientes, usaram os

próprios índios para ajudá-los. Do lado dos portugueses estavam os tupis e do

lado dos franceses os tamoios. Os padres jesuítas, buscando a paz, propuseram

uma trégua da seguinte forma: dois índios tamoios ficariam como reféns dos

portugueses e dois tupis ficariam com os tamoios. Os dois reféns dos tamoios

foram Anchieta e o Padre Manuel da Nóbrega que ficaram na praia de Peruíbe,

em Ubatuba. Eles foram recebidos inicialmente com certa agressividade pelos

tamoios, mas em pouco tempo os índios foram percebendo que eles vinham

em missão de paz. Passaram então a gostar deles, chegando ao ponto de

oferecer índias para que fizessem sexo com elas. Eles explicaram que não

podiam e nem queriam ter relações sexuais. Os índios ficaram espantados e

acabaram aceitando, mesmo sem compreender. Depois de dois meses, como a

trégua não estava adiantando, o Padre Manuel da Nóbrega resolveu ir para

São Vicente tentar resolver o problema, deixando Anchieta sozinho. Diante de

todas aquelas índias nuas Anchieta temeu por sua castidade, e resolveu fazer

mais um voto de amor a Nossa Senhora. Prometeu que escreveria a vida dela

em versos se ela o ajudasse a não cair em tentação. E assim foi feito. Ele

compôs o mais longo poema da história da Igreja para nossa senhora, com

5.786 versos em latim. Ele escrevia nas areias da praia e ia memorizando.

Outro fato impressionante é que certa vez - absorto completamente ao

escrever na areia -, ia caminhando para trás e o mar ia recuando, de modo a

deixá-lo escrever. Os índios aterrorizados gritavam tentando alertá-lo. Ao

escutar os gritos dos índios, vinha andando lentamente para frente, e quando

chegava numa distancia segura, todo aquele paredão de água represada

despencava, fazendo um grande estrondo.

                         Ajuda na Fundação da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

            Após serem libertados foram para o Rio de Janeiro. Anchieta, Padre

Manoel da Nóbrega e Estácio de Sá juntaram uma pequena tropa de umas 300

pessoas entre índios e portugueses para combater os franceses. Atrás do Pão

de Açúcar eles fizeram seu primeiro acampamento e ali foi à fundação da

cidade do Rio de Janeiro. Ele ajudou na fundação da cidade, mas logo depois

foi para a Bahia onde foi finalmente ordenado padre aos 32 anos de idade. O

próprio Anchieta conta como ocorreu a batalha das canoas onde Estácio de Sá

com oito canoas conseguiu vencer cento e sessenta canoas de tamoios.

Durante a batalha, houve uma explosão de pólvora na canoa principal de

Estácio de Sá e por isso os tamoios se apavoraram e bateram em retirada.

Entretanto, segundo relato dos próprios tamoios, eles viram um soldado que

espantosamente passava de canoa em canoa dos portugueses para defendêlos.

Este soldado foi posteriormente identificado pela tradição como sendo São

Sebastião. A cidade do Rio se chama São Sebastião do Rio de Janeiro por dois

motivos. Porque o nome do Rei de Portugal na época era Sebastião e porque

São Sebastião protegeu como soldado cristão, aqueles poucos portugueses na

batalha das canoas. Nos escritos de Anchieta sobre a batalha das canoas, fica

claro que para os jesuítas essa batalha acabou adquirindo um valor religioso,

pois a maioria dos franceses era formada por protestantes. Se a batalha fosse

perdida, o trabalho missionário seria comprometido aqui na Terra da Santa

Cruz. A presença de São Sebastião na batalha confirma de maneira

sobrenatural esse caráter religioso.

                         Anchieta, o Novo Adão.

            Na Bahia já como padre celebrou sua primeira missa de maneira muito

devota e com muitas lágrimas... Foi provincial dos jesuítas no Brasil durante 10

anos. Durante algumas épocas do Ano ele visitava as aldeias que já estavam

convertidas, sobretudo no litoral. Além disso, fazia incursões continente

adentro visando evangelizar novas tribos. Nessas incursões levava o rosário no

pescoço, uma cruz na mão, um cajado na outra e uma trouxa, onde guardava o

breviário e objetos necessários para celebrar a missa. Ele foi apelidado de novo

Adão, pois tinha um dom que certamente Adão possuía no paraíso, que era o

dom preternatural sobre os animais. Ele dizia que o homem obediente a Deus

tem todas as criaturas subjugadas. Assim ele conseguia dominar e ter a ajuda

de animais. Um dia o Padre Manoel da Nóbrega passou mal numa canoa em

função do calor e Anchieta fez um sinal para os pássaros que vieram e se

juntaram acima da canoa fazendo uma sombra. Os pássaros foram voando

fazendo sombra acima da canoa até que a canoa chegasse em terra firme.

Depois que o Padre já estava acomodado, Anchieta fez um sinal e agradeceu

aos pássaros que saíram voando. Em outra ocasião, apareceu na mata uma

cobra e todas as pessoas começaram a correr, mas ele disse para a cobra

calmamente: eu já não te disse para parar de fazer essas maldades? A cobra

baixou a cabeça e foi embora... Obviamente ocorriam muitas conversões

daqueles que atestavam esses fatos e foram muitos casos assim... Ele tinha

também um poder impressionante sobre os índios que muitas vezes queriam

matá-lo, mas ao chegarem perto dele não conseguiam. Muitas vezes em

missão vinham índios irados para matá-lo. Ele levantava a cruz e o índio

olhando aquele crucifixo se acalmava instantaneamente.

 

                        Morreu nosso Pai! Morreu aquele que nos amava!

            Nos seus últimos momentos de vida, muito doente e acamado se

levantou para ajudar um amigo que também estava doente. Desmaiou ao se

levantar para tentar preparar um remédio. Foi levado para cama novamente,

onde recebeu sua última eucaristia, morrendo em seguida com um olhar vivo e

invocando Jesus e Maria. A notícia se espalhou entre os índios que chorando

diziam: “morreu nosso pai, morreu aquele que nos amava, morreu aquele que

deu a vida por nós!”. Faleceu em Reritiba no Espírito Santo e seu corpo foi

levado em cortejo por cerca de três mil índios até a cidade de Vitória onde foi

sepultado como Santo. Apesar de só ter sido proclamado Santo agora pelo

Papa Francisco, já era considerado santo desde que deixou sua casa nas ilhas

canárias aos 14 anos de idade. Conhecendo a vida desse gigante entendemos

porque o Papa não hesitou em proclamá-lo Santo. Anchieta foi um homem que

não mediu esforços para salvação das almas. De certa forma ele foi o fundador

do Brasil. Ele trabalhou para que houvesse uma unidade religiosa e lingüística

aqui no Brasil. Foi mais um daqueles homens que ao chamado Cristo não

olham para trás. Como vimos, trabalhou e amou Cristo no serviço ao irmão

durante todo o tempo de sua vida, desde a ajuda aos companheiros na viagem

para o Brasil, até o preparo do remédio que culminou em seu desmaio

instantes antes de sua morte. São Paulo nos diz que o amor de Cristo nos

impulsiona e esse Amor foi o grande impulso da vida de Anchieta.

 

São José de Anchieta interceda pelo Brasil que você tanto amou.