Relativismo e o Mundo, que dizer e fazer? - Por João Batista

           

Vivemos num mundo secularizado onde os valores humanos do poder, do ter e do prazer são objetos de adoração e de idolatria. A perda dos valores cristãos torna as pessoas desumanas.

Mediante a esta cultura, a pergunta é: quais são os seus valores? O quanto estes valores estão sólidos dentro de você? E diante do mundo, das pessoas e da sociedade?

Muitas vezes carregamos valores cristãos autênticos, mas acabamos por sucumbir quando precisamos nos expor diante dos outros, muitas vezes agimos de forma leviana quando nos confrontamos em uma situação onde nossos valores se contrapõem a uma vantagem, seja financeira, seja por prazer ou poder. Isso significa que carregamos os valores, que temos valores infundidos dentro de nossa consciência, mas não “valorizamos” nossos “valores”. Podemos ter uma linda Teoria de Valores Cristãos, mas, se não a utilizamos, ela não passa de uma linda teoria.

E como se relacionar com outras pessoas numa sociedade tão pluralista e com diversas culturas e valores tão diferentes, onde o relativismo predomina de forma abundante e dita uma nova ordem? Seria correto agir de forma agressiva com intuito de impor a todo custo seus valores? Seria correto agir de forma passiva aceitando e concordando com tudo, apenas para ficar bem com tudo e com todos? Certamente não devemos ser agressivos e muito menos passivos, mas ASSERTIVOS.

E o que significa isso? A palavra assertividade deriva de "asserto", que significa  uma proposição decisiva. Uma pessoa que demonstra assertividade é autoconfiante, que não tem dificuldades em expressar a sua opinião. Assertividade é uma competência emocional que determina que um indivíduo consegue tomar uma posição clara, ou seja, não fica "em cima do muro". Uma pessoa assertiva afirma o seu “eu” e a sua autoestima, demonstra segurança e sabe o que quer e qual alvo pretende alcançar.

A mídia, o poder público e a sociedade colocam o homem no centro do universo e tudo mais gira em torno do prazer, da satisfação, da vontade e do desejo; os parâmetros estão diretamente relacionados ao EU:

Eu nasci para ser feliz e tenho direito a isso, sou dono da minha vida e do meu corpo, desta forma se uma relação sexual prazerosa resultou numa gravidez indesejada, eu posso “abortar” esta criança, afinal o corpo é meu, a vida é minha e EU não quero isso.

Se dois jovens começam a namorar aos 11, 12 ou 13 anos não há importância se eles tiverem relações sexuais, desde que utilizem a camisinha é claro, até porque eles podem ter diversos parceiros e não vão querer contrair AIDS ou uma gravidez.

E podemos até dizer assim: O que há de mal em “apertar um baseadinho” ? E natural, inclusive usa-se até pra remédio.

Bem, quanto ao consumo de álcool não há nenhum problema desde que seja dentro de casa, porque é bem melhor beber em casa do que na rua.

E se citarmos o assunto do momento - a ORIENTAÇÃO SEXUAL: não importa “em que sexo você nasceu”, não importa sua natureza, você tem o pleno direito de assumir a ORIENTAÇÃO que quiser, o importante é ser feliz, afinal nos dias de hoje isso é normal, dá toda hora na televisão. Isso é amor, e como podemos dizer não ao amor. E pensando bem, você não vai querer ser chamado de homofóbico, até porque isso é crime e se você se demonstrar contrário, pode ser preso por não aceitar.

Amados irmãos, não podemos perder nossa coerência com Deus, devemos acima de tudo lembrar sempre e nos deixar guiar por uma verdade: Deus ama todos os seus filhos, não importa o que eles façam de suas vidas, não importam os seus pecados, não importam seus erros; contudo, Deus não ama o erro, não ama o pecado e não se felicita quando o homem quer assumir o seu lugar e quando caminha em direção à morte.

Por isso nós também somos convidados à semelhança de Deus, a amar todos os nossos irmãos sem distinções, não podemos julgar e nem avaliar as pessoas por seus valores, mas podemos e é nosso dever de cristão anunciar o Evangelho.

Se os valores que carregamos estão baseados na verdade do Evangelho de Cristo, é nosso dever confrontar tudo que contraria e deforma a única e absoluta verdade da Boa Nova do Senhor, desta forma, nosso confronto não deve ser contra pessoas, mas contra ideias, contra falsas verdades.

Vivemos em uma sociedade caracterizada pelo secularismo, quer dizer, prescinde- se por completo de Deus e, em geral, de princípios religiosos na hora de legislar, de organizar a sociedade. Estamos em um mundo aceleradamente secularizado que se expande cada vez mais e vai tomando conta das pessoas. O ser humano vai perdendo o sentido profundo de sua vida, sua razão de ser no mundo e tornando-se escravo de si mesmo, das leis criadas por ele mesmo e da máquina que deveria estar ao seu serviço.

Por outro lado, nesta sociedade prevalece não só o sistema de mercado livre, mas também sua filosofia, ou seja, entre nós, não correm somente mercadorias e capitais, mas também ideias. Por tal razão, esta sociedade se caracteriza também por um enorme pluralismo cultural, o qual, entre nós, funciona sem equilíbrio, a lei da oferta e da procura em meio a uma feroz competição, consequentemente o que mais oferece e grita mais alto se impõe. Encontramo-nos quase sempre atordoados pela propaganda maciça e enervante das mil variedades de seitas, de ideologias políticas e de filosofias. Estas ditas ‘religiões’ e correntes ideológicas e filosóficas sustentam suas convicções com um proselitismo verdadeiramente agressivo, e altíssimos orçamentos econômicos e todas oferecem ostensivamente de forma convincente sempre a mesma coisa, isto é, a “salvação” a todos que se puserem a sua frente, afirmando que se trata da solução de todos os males, ou ainda, o bem estar pessoal colocando o homem no centro do universo. Todo resto gira em torno do homem,  porque na “verdade”, o homem tem direito de ser feliz.

É dentro dessa realidade toda que nos encontramos como pessoas cristãs, chamadas a transformá-la, vivendo o compromisso que assumimos no batismo.

Em 1989, o Papa João Paulo II fazia um apelo aos jovens da época, muito válido aos jovens e a todos os cristãos de todos os tempos:

“… não tenhais medo de ser santos! Tende a coragem de buscar e encontrar a verdade, para além do relativismo e da indiferença daqueles que tendem a edificar o nosso mundo como se Deus não existisse. Jamais sereis desiludidos se conservardes como ponto de referência na vossa busca, Cristo, verdade do homem. A revelar o mistério do Pai e do seu Amor, Ele ‘manifesta perfeitamente o homem ao próprio homem e descobre-lhe a sublimidade de sua vocação’ (GS 22).

Tende a coragem da solidariedade, na Igreja e no mundo: convidai todos a serem, juntamente convosco, os artífices da ‘civilização do amor’, que o evangelho exige que edifiquemos, superando as divisões e os ódios que se escondem no coração humano, reconciliando os homens com as criaturas, os homens entre si e os homens com Deus. Eis aqui o enorme projeto que se vos apresenta. Compete-vos pô-lo em prática!

… Ide também vós, por todos os lugares, sempre conscientes do desejo de (Jesus) Cristo: ‘Vim lançar fogo sobre a terra; e que quero eu senão que ele se tenha ateado?’ (Lc 12,49). Fazei com que arda este fogo que Jesus trouxe, o fogo do Espírito Santo, que queima toda a miséria humana, todo o mesquinho egoísmo, todo o mau pensamento. Deixai este fogo que se propague em seu coração”. (L’Osservatore Romano, nº 39/09/1991).

Em março de 1991, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, entre outras, o Papa dirige estas palavras à juventude, em cadeia de rádio:

“É tarefa dos jovens lembrar à humanidade, por palavras e pelo testemunho, que Deus é Pai de todos. (…) Exorto-vos a colocarem Cristo no centro de vossas vidas e a darem testemunho de Cristo, para construírem um mundo mais justo e mais fraterno”.

Assim, pois, a participação de vocês na atividade apostólica missionária da Igreja não é um de generosidade excepcional, pelo qual vocês exercem um trabalho eficiente e partilham e compartilham as obrigações e tarefas da autoridade eclesiástica. Não. Agora que o número de sacerdotes diminuiu na Igreja e suas obrigações e compromissos vão aumentando, e eles não podem resolver tudo, vocês, com sua colaboração, devem tratar de ajudá-los em suas exigências.

Não é o caso, não é esta explicação. A razão de seu serviço apostólico não é outra senão a seguinte: pela vinculação do seu batismo, por serem membros vivos do Corpo de Cristo, vocês participam diretamente da missão sacerdotal, profética e régia do Cristo e, em última instância, do mandato missionário que Cristo recebeu do Pai e que por sua vez transmitiu aos Apóstolos.

Tomem consciência de sua identidade e de sua missão. Vocês não são um caso fortuito das combinações cegas e fatais da biologia. Um espermatozóide se uniu a um óvulo, tudo funcionou normalmente e o resultado é você. Não. Não é esse o caso. Assim como Jesus é o Filho amado do Pai enviado a este mundo, as mesmas palavras, pondo em letras minúsculas, podem ser aplicadas a vocês. A todos nós. Vocês são filhos amados do Pai, enviados a este mundo, para que, a semelhança de Jesus, colaborem para levar a cabo o plano de Salvação projetado pelo Pai     

O desafio está lançado: transformar este mundo que está se estruturando como se Deus não existisse, de tal forma que as pessoas estão caindo na solidão, no vazio, nas drogas, no alcoolismo, na depressão, na prostituição, na ganância, na corrupção, na prática de abortos, na violência … Não é à toa que cada vez mais o número dos suicídios aumenta. O homem vai se afastando cada vez mais de Deus e atraindo para si a morte, pois está esquecendo que Deus é o princípio e o fim. Ele é a Vida.

O homem está esquecendo que é feito a imagem e semelhança de Deus. Que Deus lhe preparou todo um universo, o ambiente da vida, e que é a presença de Deus, a união, a intimidade com Ele que mantém esta mesma vida.

Estamos esquecendo que Deus se fez um de nós, encarnou-se, veio recuperar, resgatar em nós esta imagem e semelhança divinas, maculadas pelo pecado. Que Ele veio resgatar e nos mostrar pessoalmente a dignidade da vida.

Esta perda da consciência daquilo que somos é visível. Basta nos perguntar sobre a postura que temos diante da vida. Basta ver a realidade do matrimônio e da família como centro de formação da vida. Olhar para o número de abortos praticados a cada ano. E tantas outras realidades onde os episódios de morte parecem ser normais nos dias de hoje.

A proposta de Jesus vem ao encontro de todas essas realidades como uma proposta de VIDA, proposta de amor.

Jesus Cristo nos revela que o Pai é AMOR, que Ele quer a vida de seus filhos, pecadores, e não a morte. Já o Livro de Ezequiel nos aponta para esta vontade do senhor quando diz:

“Certamente não tenho prazer na morte do ímpio; mas antes na sua conversão, em que ele se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos. Por que haveis de morrer, ó casa de Israel” (Ez 33,11).

Já Lucas nos apresenta as seguintes palavras de Jesus:

“Os sãos não têm necessidade de médico e sim os doentes; não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento” (Lc 5,31).

Cristo tem uma proposta concreta, baseada no mandamento do amor. Esta proposta se concretiza em várias dimensões:

Cristo mostra que todos são filhos de Deus e têm os mesmos direitos diante de Deus. Sua proposta é de fraternidade, de encontro e união entre todos. Para que isto aconteça, Ele propõe o AMOR: amor a tal ponto de amar os inimigos. Sua proposta é radical. Vai contra os valores individualistas do mundo.

E para que mude a situação de pecado é necessário que haja a conversão. A conversão é um “parto doído”, um sair das estruturas de pecado (do individualismo), para entrar numa nova estrutura: a comunidade do amor.
Nós já fomos perdoados por Cristo, através do seu mistério Pascal. Pelo Batismo assumimos o compromisso com Cristo: tornamo-nos cristãos. Somos herdeiros de Deus, elevados por Cristo à condição de filhos (cf. Gal 4, 1-7).

Ser cristão é reproduzir hoje a imagem de Cristo em nós. É perdoar a ponto de amar o inimigo. É anunciar ao mundo a Boa Nova que assumimos, testemunhando-a com a vida. Fazer do Evangelho, dos valores do Reino a nossa conduta de vida. Viver o Evangelho no mundo de hoje como viveram as primeiras comunidades cristãs em seu tempo e em seu mundo (cf. At 2, 42 ss).

Encontrar formas de mostrar ao mundo de hoje os valores nos quais nós acreditamos. Ter uma postura de vida coerente: traduzir a fé em gestos concretos, em atitude permanente. Tantas vezes temos medo de ser diferentes. Esquecemos que se é necessário conversão, temos que ser o testemunho vivo daquilo que diferencia toda situação.

Portanto, é necessário perseverar na luta. E todos sabemos como isso é difícil. Mas o próprio Cristo nos mostra que o Reino de Deus é conquistado com esta força: a força da nossa vontade, consoante com a vontade e a graça de Deus que se faz presente.

Para isso, necessitamos da oração, da leitura e reflexão da Palavra de Deus, do silêncio e da escuta, a fim de descobrirmos a Vontade de Deus que nos levará à caridade, à vivência desta proposta.

Tudo isto começa pela fé em Jesus Cristo. Como poderemos manifestar o nosso testemunho ao mundo se não estivermos convictos de que aquilo no que e em Quem acreditamos é a Verdade?

Nós afirmamos que Deus é Amor, é Vida, é Pai. Não estamos satisfeitos com a situação do mundo. Dizemos que o Evangelho é Verdade… Mas, nos perguntemos agora: quanto tempo por dia dedicamos à leitura e à meditação da Verdade – da Palavra de Deus? Como está a nossa frequuência à Eucaristia? Como tornamos presente, no cotidiano da vida, o Cristo que recebemos na Palavra e na Eucaristia?

Façamos um exame de consciência.

Nós, cristãos, temos as três grandes virtudes: Fé, Esperança e Caridade. Estas virtudes nos identificam como cristãos. Mas, se não as vivermos, que esperança, que sinal seremos para o mundo? Não seremos sal e luz para o mundo. Como é triste um cristão sem esperanças!

Se a nossa vida no dia-a-dia, o nosso modo de ser e de viver, a partirem das menores coisas e momentos que sejam, a nossa honestidade, coerência, caridade, fidelidade, não esquentarem o coração das pessoas, não as atraírem para Deus, estamos sendo falsos cristãos, nossa vida não está sendo de acordo com a nossa fé. 

Nosso momento é agora. Não importa os passos dados, mas os que estamos e estaremos dando a partir de agora.

Portanto, concluímos que pertencer a Igreja não é um apenas um privilégio, mas um compromisso.