São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja - Por Luciano Bandeira

Segundo o Cardeal Italiano César Barônio, São Bernardo foi um homem verdadeiramente apostólico, autêntico apóstolo enviado por Deus, poderoso em obras e palavras, tornando célebre em toda a parte e em todas as coisas o seu apostolado com os prodígios que o acompanhavam, de maneira que se deve dizer que em nada foi inferior aos grandes apóstolos. Foi ornamento e ao mesmo tempo amparo de toda a Igreja Católica. 

Grande Pescador de Homens

Bernardo nasceu em 1090 no castelo dos Fonteines de Dijon na França, numa família nobre e muito rica. Foi o terceiro de sete filhos, sendo uma menina e seis meninos. Desde pequeno, inspirado pela mãe, se dedicou aos estudos e a meditação. A mãe, Aleth, era muito piedosa e confiou todos os filhos à Deus. Aos nove anos foi enviado para a Escola Canônica de Châtillon-sur-Seine. Com a morte da mãe, decide entrar para o mosteiro de Cister, onde a pobreza, o silêncio e a oração são vividos de maneira genuína. Após comunicar sua decisão sofre grande resistência do pai e dos irmãos. Todavia, com calma e sabedoria começava a exercer o dom que o faria, durante toda a vida, um grande pescador de homens. À exceção do caçula, que era muito novo, e da irmã, já casada, consegue convencer todos os irmãos, -inclusive um já casado - a entrar, junto com ele, no mosteiro. Um fato belíssimo marca a despedida dos irmãos... O irmão mais velho de Bernardo, ao se despedir do caçula diz: “Estamos deixando toda herança pra você. Agora tudo é seu!”. O menino, inspirado pelo Espírito Santo, responde: “mas isso é uma troca muito injusta!.. Vocês ganham o céu e deixam a terra pra mim?! Além dos irmãos convence também um tio, primos e alguns amigos. Esse grupo de trinta pessoas se apresenta ao abade fundador da ordem de Cister, São Roberto de Molesme. Anos depois, recebe também o irmão caçula e o pai no mosteiro de Claraval. Por fim, sua irmã Umbelina decide entrar num Monastério Beneditino, tornando-se a Abadessa do mesmo. Família de Deus! Bernardo e a irmã Umbelina são Santos; o Pai, Tecelino, é venerável; a mãe e todos os irmãos são beatos. Seu dom de persuasão era tão intenso e cheio do amor de Deus, que, ao pregar, em suas passagens por vilas e cidades, as mulheres seguravam os maridos em casa e as mães escondiam os filhos, por medo de que o seguissem.

Fundação de Claraval e das Abadias Cirtercienses

Em 1115, Santo Estevão Harding, sucessor de São Roberto no mosteiro, maravilhado com a maturidade e santidade daquele jovem de 25 anos, toma uma decisão importante. Pede a Bernardo que parta na companhia de 12 monges a fim de criar uma nova abadia em Claraval. Ele parte então com mais 12 monges que são seus irmãos, seu tio e seus primos. O vale onde a abadia se instalou era um lugar tenebroso e isolado do mundo; refúgio para os bandidos da região. Neste lugar perigoso e esquecido iniciou-se a escalada de difusão da vida monástica que ficou conhecida como Ordem dos Cirtencienses. Bernardo já havia atingido um grau super-eminente de amor de Deus e de união com a vontade divina, mas faltava-lhe ainda compreender bem a humana fraqueza de seus subordinados. Tinha escrúpulos de dirigi-los pela palavra, crendo que Deus lhes falaria no íntimo da alma muito melhor do que ele. Estava nessa tentação, quando um dia apareceu-lhe um Menino todo envolto numa luz divina. Com grande autoridade, este ordenou-lhe que dissesse tudo quanto lhe viesse ao pensamento, porque seria o próprio Espírito Santo que falaria por sua boca. Ao mesmo tempo recebeu uma graça especial de compreender as fraquezas dos outros e de se acomodar ao espírito de cada um, para ajudá-los a vencer suas misérias. Sua presença e santidade se espalhava por toda Europa. Muitos que iam visitar Claraval decidiam livremente que não visitariam mais lugar nenhum. Um desses visitantes foi o príncipe Henrique da França, sucessor da coroa e irmão do Rei Luís VII. O príncipe sentiu-se tocado durante uma visita à Claraval, decidindo lá permanecer. Mais tarde sagrou-se Bispo de Beauvais e Arcebispo de Reims. São Bernardo fundou diretamente 160 mosteiros e o numero máximo chegou a quase 400 abadias. Perto de sua morte haviam em Claraval cerca de 700 monges.

Grande Apóstolo e Taumaturgo

Sua pregação era em geral acompanhada por grande número de milagres: livrava possessos do demônio, restituía a vista a cegos, movimentos aos paralíticos, voz aos mudos, audição aos surdos. Ele praticamente não podia andar sem ser seguido por uma multidão de doentes e de sãos que nele queriam tocar. Sua missão pública quase não teve similar na história. Tudo de importante que aconteceu no século XII passou por ele. Foi conselheiro direto dos Papas e árbitro de conflitos dentro e fora da Igreja: combateu e terminou com o cisma convencendo o sucessor do Antipapa Anacleto II a desistir de seu erro; conquistou Reis e Rainhas para a Igreja; converteu milhares por sua santidade, pelo discurso eloquente, por cartas ou por milagres; atuou nas desavenças entre os monges de Cluny e de Cister; foi a alma dos Concílios de Latrão, de Troyes e de Reims; combateu diretamente todas as heresias e o mau comportamento de alguns bispos; na Alemanha, defendeu com vigor os judeus que eram atacados de maneira injusta por pregadores populares; pregou a segunda cruzada, o que fez com a força de sua inteligência e o poder de milagres. Conta seu secretário que na Alemanha ele curou, num só dia, nove cegos, dez surdos-mudos e dez paralíticos. Em Mayence na França, a multidão que o rodeou foi tão grande, que o Rei Conrado III foi obrigado a tomá-lo em seus braços para tirá-lo ileso da igreja.  Por toda parte o santo era olhado como o pai dos fiéis, a Coluna da Igreja, o apoio da Santa Sé, o Anjo protetor do povo de Deus. 

 

Grande Devoto da Virgem

           A devoção de Bernardo pela Virgem Maria era incomparável. Certo dia, quando entrava na catedral de Spira, na Alemanha, em meio ao Clero e o povo, ele ajoelhou-se por três vezes, dizendo na primeira: “Ó clemente!”; na segunda: “Ó piedosa!”; e na terceira: “Ó doce Virgem Maria!”. A Igreja acrescentou depois estas invocações ao final da Salve Rainha. Seus escritos sobre nossa senhora são de uma beleza extraordinária, tendo servido de fonte primária para muitos outros santos marianos.

           O encontro definitivo com Deus

           Seriam necessários muitos livros para descrever a vida apostólica desse Santo excepcional. Aliou em sua vida ação e contemplação, sendo também um dos maiores místicos da história da Igreja. No fim de sua peregrinação, sua saúde, sempre debilitada por grandes mortificações, piorou. Ele que quase não comia, e pouco dormia, finalmente entrou no céu no dia 20 de agosto de 1153. Estando para morrer, seus filhos espirituais clamavam aos Céus para segurá-lo na Terra. Ele lamentou-se docemente: “Por que desejais reter aqui um homem tão miserável? Usai de misericórdia para comigo, eu vos peço, e deixai-me ir para Deus”. São Bernardo foi aquele grãozinho de mostarda que muito cresceu, multiplicador de pães, fermento na massa, sal da terra e a Luz de Cristo na terra. Na Igreja Militante ele foi o maior de sua época; na Igreja Triunfante ele ocupa certamente um lugar bem próximo à Deus.

São Bernardo Interceda por nós!