São João da Cruz e o Mistério da Santa Cruz - Por Luciano Bandeira

            A cruz que deve acompanhar todo cristão esteve sempre presente na vida de São João: conheceu a miséria e a fome desde cedo; a dor pela morte do pai e do irmão; a rejeição dos tios ricos; a solidão e desemprego da mãe; a incompreensão dos que não percebiam sua santidade; o ódio, a calúnia, a perseguição de seus confrades, que viam em sua vida santa, uma ameaça para suas vidas afastadas de Deus.

A família do Santo e a vida confirmada na Graça

            João nasceu em Fontiveros, perto de Ávila, Espanha. Seu pai, Gonzalo, trabalhava como contador junto a familiares do comércio de Seda. Em 1529 foi rejeitado por sua rica família por ter se casado com Catalina, que era órfã e de classe inferior. Passou então a trabalhar como tecelão vindo a falecer em 1545, quando João ainda era uma criança. Sua esposa ficou na penúria e logo após a morte do marido, faleceu também seu filho mais velho, provavelmente por má nutrição. A viúva mudou-se para Arévolo, e três anos depois, para Medina Del Campo, onde finalmente conseguiu emprego. Lá, João entrou numa escola para crianças pobres, onde recebeu uma educação básica, a doutrina cristã e um lugar para viver. Nos anos seguintes trabalhou num hospital e estudou numa escola jesuíta, da recém criada Companhia de Jesus. Em 1563 entrou para a Ordem Carmelita e, no ano seguinte, professou seus votos recebendo o nome de João de São Matias. Viajou para Salamanca, onde estudou teologia e filosofia na prestigiosa universidade da cidade. Após ser ordenado sacerdote voltou a Medina para celebrar sua primeira missa. Durante a celebração, com fervor angélico, pediu a Deus que não permitisse que cometesse mais nenhum pecado mortal. Anos depois, estando uma virtuosa freira esperando que Frei João terminasse de atender outra pessoa, recolhendo-se em oração, “manifestou-lhe o Senhor a grande santidade do frei João; e lhe revelou que, quando [o mesmo] celebrou sua primeira Missa, lhe havia restituído a inocência e posto no estado de um menino de dois anos, sem duplicidade nem malícia, confirmando-o em graça como os Apóstolos para que não pecasse e jamais O ofendesse gravemente”.

 

Encontro com Santa Teresa D’avila

Foi precisamente logo depois dessa graça que ele teve o encontro providencial com Santa Teresa. Estava ela em Medina, onde acabara de fundar um convento reformado de freiras, quando ouviu falar dele. Logo pensou que poderia dar origem ao ramo masculino de sua reforma, e suplicou a Deus que lhe concedesse essa graça. No dia seguinte, Frei João explicou a Teresa que queria fazer-se cartuxo – os cartuxos têm uma regra muito severa -- para melhor levar uma vida de contemplação e penitência. Quando a Madre lhe explicou a idéia do Carmelo com a primitiva regra, ele ficou encantado em ajudar Madre Teresa na obra. Desse modo João de São Matias tornou-se João da Cruz – nome pelo qual se tornaria mundialmente conhecido –, tendo sido o primeiro frade a receber o hábito da Reforma carmelitana.

            Os Méritos da Santa Cruz compreendido pelos Grandes Santos

 

Ele se tornou a principal vítima da verdadeira batalha que houve entre carmelitas Calçados e os Descalços sobre a reforma. Sua santa conduta despertou o ódio dos monges que não desejavam a reforma da ordem, sendo injustamente preso pelos Monges Carmelitas Calçados na prisão do convento de Toledo. Encarcerado por nove meses em cela fria e sem janelas, inteiramente incomunicável e jejuando a pão e água, afirmaria ele mais tarde: “Não vos espanteis se eu mostro tanto amor pelo sofrimento; Deus deu-me uma alta idéia de seu mérito e valor quando eu estava na prisão de Toledo”. Em contrapartida, nesse forçado isolamento recebeu sublimes favores divinos, compondo ali alguns dos seus mais notáveis poemas. Depois de uma fuga dramática, ocupou-se da formação de noviços, direção de professos, e atendimento espiritual de frades e religiosas. Outro grande santo - São Luís Maria Grignion de Montfort -, referindo-se também ao mistério e aos méritos da Cruz nos diz: “Aquele entre vós, que melhor souber carregar a sua própria cruz, ainda que não saiba mais que o A ou B, é sem dúvida, o mais sábio de todos. São Paulo após a sua experiência mística em que pôde conhecer de perto mistérios desconhecidos pelos próprios anjos, exclamou que não queria conhecer ou saber nada fora de Jesus Cristo, e este Crucificado”. São Luís acrescenta: nossos sofrimentos, por maiores que sejam é nada comparado com o que sofreram Jesus e Maria. Não há saída: ou aceitamos sofrer e carregar a cruz com paciência e resignação como os predestinados, ou carregaremos com impaciência e murmurações, como sucede com os condenados. O santo adverte que se pudéssemos ver as anotações do diário do demônio contra nós- e as respectivas penas por nós merecidas- ficaríamos espantados do nosso grande déficit e seríamos muito felizes se pudéssemos sofrer anos a fio neste mundo, para não sofrer um só dia no outro.


            Para morrer, coloca-se nas mãos de seus piores inimigos

Como grande Santo e por conhecer, por graça de Deus, os méritos da Cruz, já próximo de sua morte intensificou seu sofrimento, aumentando, por amor a Deus, o peso de sua Cruz. Em 1591 -- apesar de ter sido o primeiro padre da reforma teresiana -- viu-se privado de todos os cargos que tinha na Ordem e reduzido a simples religioso. As perseguições, as calúnias e as humilhações só aumentavam e ele pediu para se retirar a um convento isolado, onde pudesse ser tratado com um mínimo de consideração e respeito. Nesse convento, os sintomas de sua última doença surgiram e o superior pediu-lhe que escolhesse um convento com mais recursos, para poder se tratar. Redobrando as forças escolheu o de Ubeda que era dirigido por um de seus maiores inimigos, para assim poder sofrer mais e até o fim. Surgiram-lhe tumores numa perna, que foram intoxicando todo o corpo. Como esperado o sofrimento aumentou, pois o prior, mostrava-se inflexível, não dando ao enfermo nem o básico para o seu tratamento. Foi preciso que os religiosos mendigassem nas ruas alimentos e medicamentos para o doente. Chegando o Provincial, repreendeu o prior por sua dureza de coração. E este reconheceu sua falta, mudando de tratamento. Mas o Santo já estava no fim, e tinha bebido tudo quanto podia do cálice de sofrimentos e humilhações. Entrou em agonia no dia 13 de dezembro, falecendo pouco depois da meia-noite. Sua festa litúrgica é celebrada em 14 de Dezembro. O Papa Clemente X o beatificou em 1675, Bento XIII o canonizou em 27 de dezembro de 1726, e em 1926 Pio XI o declarou Doutor da Igreja. È conhecido também como Doutor Místico.

 

Conclusão

São Luís Maria Grignion de Montfort nos aconselha sabiamente que não devemos nos comparar aos grandes santos; não devemos procurar as cruzes de propósito, pois não se pode provocar o mal para daí retirar um bem. A verdadeira felicidade dos cristãos consiste em aceitar com paciência e constância heróica as cruzes que Deus nos envia; e Ele costuma enviar muitas para seus amigos como podemos ver no diálogo a seguir com Santa Teresa D’ávila. “Senhor, se estou cumprindo Tuas Ordens, por que tenho tantas dificuldades no caminho? Jesus respondeu: - Teresa, não sabes que é assim que trato os meus amigos? Teresa, respondeu: - Ah, Senhor, então é por isto que tens tão poucos!”. Os verdadeiros católicos são bem poucos! Os grandes santos souberam converter todo sofrimento em crescimento espiritual; os apóstolos exultaram de alegria por se acharem dignos de sofrer por Cristo. Se sabemos sofrer para conseguir bens neste mundo, por que não podemos sofrer para conquistar a eternidade? Que nossa Senhora nos conduza e nos guarde nesse pequeno grupo de amigos de Jesus. E que nunca nos esqueçamos do que disse São Luís de Montfort: “Jamais a Cruz sem Jesus e nem Jesus sem a Cruz!”.

São João da Cruz interceda por nós!