Santo Inácio de Antioquia, Bispo e Mártir do século II - Por Luciano Bandeira

            “Para eliminar todas as desculpas da fraqueza infiel, os mártires abriram-nos o caminho. Esse caminho deveria ser feito com pedras lavradas para que andássemos com segurança. Eles fizeram-no com seu sangue e com seu testemunho. Desprezando seus próprios corpos, estenderam-nos, quais vestimentas, diante de Cristo que vinha salvar todos os povos...” (Santo Agostinho, Sermão 325,1-2).

Santo Inácio de Antioquia foi discípulo de São João e conheceu pessoalmente São Paulo. Segundo antiga tradição foi ele o menino que Nosso Senhor Jesus Cristo abraçou quando disse: "Todo o que recebe um destes meninos em meu nome, a mim é que recebe; e todo o que recebe a mim, não me recebe, mas àquele que me enviou" (Mc 9, 37).

Perseguições aos Católicos e a força de um Soldado de Cristo

Após a perseguição aos cristãos da Síria, feita pelo Imperador Domiciano(81-96)  ascendeu ao trono imperial Trajano(98-117). Este, após grandes vitórias contra os síncios e os dacianos, decidiu direcionar seu orgulho para conquistas religiosas. Determinou que todos os cristãos deveriam unir-se aos pagãos na adoração dos deuses imperiais, ou, caso contrário, seriam perseguidos e levados à morte. Trajano visitava Antioquia quando seus editos foram publicados, e quis pô-los em execução ali mesmo. A figura de Santo Inácio era a que mais se destacava entre os cristãos, e ele foi preso e levado à presença do imperador. Seu testemunho de fé diante de Trajano, de acordo com o relato, foi caracterizado por inspirada eloqüência e coragem sublime. Todavia, após a conversa, o imperador ordenou que o acorrentassem e o enviassem a Roma, sob custódia de dez soldados, para ser alimento das feras e um espetáculo para o povo.

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos

            A caminho de Roma, durante as paradas, escreveu cartas às Igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia, Esmirna e ao bispo São Policarpo de Esmirna. Na carta aos Esmirnenses aparece pela primeira vez a expressão Igreja católica: "Onde estiver o bispo, ali estarão também as multidões, da mesma forma que onde estiver Jesus Cristo, ali estará a Igreja Católica". Tendo-lhe chegado a notícia de que os fiéis de Roma procuravam salvar-lhe a vida , apressou-se em dirigir-lhes, uma comovedora súplica: "Tenho escrito a todas as Igrejas e a todas elas faço saber que com alegria morro por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Suplico-vos: não demonstreis por mim uma benevolência inoportuna. Deixai-me ser alimento das feras, porque, através delas, pode-se alcançar a Deus...”

 

            Chegada a Roma, palco de sua ida definitiva para Deus

Viajando sob olhar e maus tratos dos guardas, chegou a Roma em dezembro do ano 107. Arrastando suas cadeias atravessou as ruas pavimentadas da capital do império: ao longe podia avistar os imponentes muros do Coliseu. Aquele edifício representava para ele a realização de suas esperanças mais íntimas e a consumação de seu holocausto. Caminhava apressadamente e convicto de que chegara o momento pelo qual seu espírito voaria ao céu.  Uma numerosa multidão correu para o Coliseu na esperança de presenciar o sangrento espetáculo e se deliciar com o destroçamento do corpo do mártir. Inácio, sereno e alegre, não manifestou a menor vacilação quando as grades foram abertas e entrou no vasto anfiteatro, à espera dos leões. As vaias e os escárnios daqueles pagãos para ele nada significavam. Pelo contrário, eram-lhe uma razão a mais para crer na invisível corte de bem-aventurados a esperá-lo no céu. Logo os famintos leões surgem na arena e, impetuosos, avançaram sobre a pura e inocente vítima para devorá-la. Entretanto, com a majestade e império que possuem as almas tomadas pelo Espírito Santo, o mártir as fez parar com um simples gesto de mão. Num movimento solene, ajoelhou-se e, elevando os braços ao céu, clamou em alta voz: "Senhor, aqueles que me acompanharam e que são também vossos filhos, pediram-me que rezasse a fim de que algo lhes sobre deste martírio, para estímulo de sua fé. Eu, porém, desejaria ser triturado como o trigo para vos ser oferecido como hóstia pura. Senhor, fazei a vontade deles e também a minha, eu vos peço". Após a oração, - assistida com estupefação pela horda criminosa e pagã e pelos paralisados leões -, fez um sinal para que as feras saíssem de seu miraculoso encantamento, e enfim dessem vazão aos instintos de sua voraz natureza.  Os poucos cristãos que ali permaneceram, esperaram o cair da noite e penetraram enfim na arena à procura de algumas relíquias do Santo. Eis que um milagre acontece! Encontraram intactos um fêmur e o coração! Tomados de sobrenatural entusiasmo, caminharam sem medir distâncias, rumo às catacumbas e depois de algumas horas, constataram, à luz das lamparinas, outro milagre: num círculo, as veias e artérias do coração do santo mártir, constituíam as célebres palavras: Iesus Nazarenus, Rex iudeorum (Jesus Nazareno, Rei dos Judeus). O martírio de Santo Inácio de Antioquia, cuja festa se comemora no dia 17 de outubro, deu-se no 11º ano do reinado de Trajano, isto é, por volta do ano 110.

Conclusão

Disse Santo Agostinho: “Deus não realizaria para nós tantas maravilhas, se com a morte do corpo acabasse também a vida da alma”. Firme nessa esperança os Santos viveram e morreram com Cristo, em Cristo e por Cristo.

Santo Inácio interceda por nós para que não nos afastemos de Cristo!