Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico - Por Luciano Bandeira

Santo Tomás viveu para responder a pergunta: Quem é Deus? Na busca dessa resposta rezava pedindo: “dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar. Dê-me, Senhor, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir”. E Deus atendeu suas preces...

O menino que buscava o Absoluto

Tomás filho do Conde Landulfo e da Condessa Teodora nasceu em 1125, no castelo de Aquino, perto de Nápoles, Itália. Aos cinco anos os pais confiaram sua educação aos monges beneditinos de Monte Cassino, cujo Abade era seu tio Sinibaldo. Ali, desde o início e com freqüência, o menino puxava a manga dos monges para fazer a pergunta: “mas afinal, quem é Deus?”. As respostas que recebia, embora verdadeiras, não satisfaziam por completo aquele menino que tinha um grande desejo de Deus.   Os pais não poderiam imaginar que aquele menino viria a se tornar um dos maiores teólogos da Santa Igreja Católica.

Descoberta da Vocação, Prisão e Fuga do Castelo

Muito jovem ainda partiu para Nápoles a fim de estudar gramática, dialética, retórica e filosofia. As matérias mais difíceis eram simples demais para ele. Seus pais desejavam vê-lo Abade de Monte Cassino ou Arcebispo de Nápoles, mas Deus tinha outros planos para ele; a ordem dos pregadores, recém fundada por São Domingos de Gusmão. Santo Tomás descobriu nos dominicanos o carisma com o qual se identificou por completo, tornando-se dominicano aos 14 anos. Sua mãe ficou furiosa quando soube da entrada do filho para aquela ordem mendicante, e desejou tirá-lo à força. Fugindo para Paris, com o objetivo de escapar da tirania materna, foi dominado por seus irmãos. Foi levado de volta até sua mãe que tentou em vão persuadí-lo a desistir de sua decisão. Como não conseguiam convencê-lo, prenderam-no na torre do castelo no intuito de forçá-lo a desistir. Ficou preso por quase dois anos e aproveitou para um aprofundamento nas vias da contemplação e do estudo. Decorou toda a Bíblia e todos os escritos que chegaram até ele, trazidos por suas irmãs. Seus irmãos por pura maldade enviaram à torre uma linda moça de maus costumes para fazê-lo cair em pecado. São Tomás não se deixou arrastar e vendo aquela mulher aproximar-se, pegou na lareira um tição em chamas e com ele se defendeu da mulher que apavorada fugiu. Após a vitória sobre a tentação, ajoelhou-se e renovou sua promessa de castidade. Como prêmio, Deus lhe enviou dois anjos, para consolá-lo e cingir-lhe um cordão misterioso que lhe assegurava o domínio da razão sobre os sentidos e sobre as paixões. Com o tempo, diante de sua Constancia e santidade, sua mãe foi levada a desistir. Não sabemos ao certo dos detalhes, mas parece que suas irmãs o teriam ajudado a fugir do Castelo.

Aluno brilhante assombra Santo Alberto Magno

Voltando à sua ordem, foi destinado ao convento de Colônia para continuar os estudos sob a diração de Santo Alberto Magno. Certo dia caiu nas mãos do Mestre Alberto um trecho escrito por seu aluno. Admirado pela profundidade do conteúdo, pediu a São Tomás para expor à toda a classe aquela temática. O resultado foi uma explanação em tudo surpreendente, na qual os demais alunos puderam comprovar quão sábio era aquele monge tão calado. Sua aula superou em riqueza, expressividade e clareza o próprio Santo Alberto que ficou assombrado com sua inteligência. Não tinha completado ainda vinte anos de idade quando foi convidado a lecionar no convento de Santiago de Paris. Nessas aulas inaugurou um método tão didático, amplo e luminoso; empregava uma linguagem tão exata; jogava tanta luz nas questões mais abstratas; fluía a verdade de seus lábios com tanta doçura e vigor que rapidamente sua fama se espalhou por todas as Universidades do mundo. Daí em diante sua vida foi uma seqüência de sublimes serviços prestados à sagrada teologia e à filosofia. Aos 22 anos de idade interpretou com genialidade a obra de Aristóteles; aos 25, juntamente com São Boaventura doutorou-se em Teologia na Universidade de Paris. Depois disso, todas as universidades disputavam a honra de poder contá-lo entre seus Doutores.

 Obra colossal

Ele produziu livros e respondeu tantas questões que se fossemos citar uma a uma encheria várias páginas. Sua prodigiosa memória lhe permitia reter todas as leituras que fazia. Todas as 80 mil citações contidas em seus escritos brotaram espontaneamente de sua memória. Nunca precisou ler duas vezes o mesmo trecho. Jamais precisou melhorar o que escreveu e ensinou. Suas obras parecem terem sido escritas todas na mesma época e todas com a mesma maturidade. Não sabemos o que mais admirar, se é a riqueza e transcendência das idéias, se é a maestria insuperável do plano, ou ainda a sobriedade e precisão da linguagem. Quando  perguntado qual era o maior favor sobrenatural que recebera, respondeu: "Creio que o de ter entendido tudo que li". Costumava resolver quatro ou cinco problemas ao mesmo tempo, ditando para diversos escreventes respostas definitivas às questões mais obscuras. Não sucumbiu ao peso de seus conhecimentos, mas, pelo contrário, os harmonizou num conjunto incomparável que tem na Suma Teológica a mais brilhante manifestação. Sem dúvida, Deus, sabendo da importante missão que o confiara lhe acumulou de benções e graças de entendimento nunca vistos. Por isso, a Igreja o considerou e venerou como Mestre e Doutor por excelência. Com justiça tem por emblema o Sol. Chesterton, ao se referir a Santo Tomás e Aristóteles faz uma comparação maravilhosa. Ele diz: “pode-se dizer que Santo Tomás percorreu uma estrada secundária quando seguiu os passos de Aristóteles. O mesmo fez Deus quando trabalhou na oficina de José”. Belíssimo!

A vida de um Santo   

Todo santo tem verdadeiro pavor de ser reconhecido como tal. Isso é comum entre todos eles, pois, tendo a Virgem Maria como modelo, não poderia ser diferente. Ele chamou Nossa Senhora de a mais espantosa das maravilhas, pois segundo sua conclusão, ela tem o poder de sozinha salvar toda a humanidade. Frei Reginaldo, seu fiel secretário, dizia que ele passava mais tempo aos pés do crucifixo do que em meio aos livros. A fim de obter luzes para solucionar problemas espinhosos, fazia freqüentes jejuns e penitências, e não raras vezes o Senhor o atendeu com revelações celestiais. Certa vez, enquanto rezava pedindo luzes para explicar uma passagem de Isaías, apareceram-lhe São Pedro e São Paulo e esclareceram todas as dúvidas. Seus confrades contam que, certo dia, estando imerso em adoração a Jesus Crucificado, o Senhor dirigiu-se a ele com estas palavras: “Escreveste bem sobre Mim, Tomás. Que recompensa queres? E ele respondeu: nada além de Ti, Senhor. Ele recebia muitas cartas com perguntas sobre as mais variadas questões; muitas vezes questões ridículas com as quais se dedicava com igual atenção. Em uma das cartas alguém lhe perguntou se era verdade que os nomes de todos os abençoados estavam escritos e expostos em um pergaminho no céu. Pela resposta podemos notar sua humildade: “Até onde sei isso não acontece; mas não há mal em acreditar nisso”. O titulo de Doutor Angélico dado pelo Papa São Pio V não lhe foi dado apenas por ter transmitido a mais alta doutrina, mas também por ter em tudo se assemelhado aos anjos.

Seus escritos geniais: "palha"...

Em dezembro de 1273, após uma visão que teve enquanto celebrava a Missa na capela de São Nicolau, não mais voltou a escrever. E àqueles que insistiram com ele para que terminasse sua obra, respondeu: "Não posso. Tudo quanto escrevi parece-me unicamente palha". É que, naquela visão, foram-lhe revelados mistérios e verdades tão altos, que tudo o mais lhe pareceu sem valor.

Última Eucaristia e Obediência Total a Igreja Católica  

Em 1274 partiu para Lion a fim de participar do Concílio Ecumênico, convocado pelo Papa Gregório X. No caminho adoeceu e veio a falecer em 7 de março, antes de completar 50 anos. Suas relíquias foram transportadas para Toulouse em 28 de janeiro de 1369, data em que a Igreja celebra sua memória. Antes de morrer proferiu essas palavras antes de receber sua última Eucaristia: "Eu Vos recebo, preço do resgate de minha alma e Viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, vigiei, trabalhei, preguei e ensinei. Tenho escrito tanto, e tão freqüentemente tenho discutido sobre os mistérios da vossa Lei, ó meu Deus; sabeis que nada desejei ensinar que não tivesse aprendido de Vós. Se o que escrevi é verdade, aceitai-o como uma homenagem à vossa infinita majestade; se falso, perdoai a minha ignorância. Consagro tudo o que fiz e o submeto ao infalível julgamento da vossa Santa Igreja Católica, na obediência à qual estou prestes a partir desta vida."  Foi elevado à honra dos altares em 1323. Na cerimônia de canonização, o Papa João XXII afirmou: "Tomás sozinho iluminou a Igreja mais do que todos os outros doutores”. No Concílio de Trento, estavam sobre a mesa da assembléia a Bíblia, os Atos Pontificais e a Suma Teológica. O Papa Pio XI foi categórico: “A todos quantos agora sentem sede da verdade, dizemos-lhes: ide a Tomás de Aquino”.

Conclusão

Sua sabedoria e ciência provinham da pureza e santidade de vida. Confessou que Deus o havia resguardado de todo pecado que poderia sujar sua alma. Sua última confissão confirmou isso quando o confessor percebeu que suas palavras se assemelhavam a de uma criança de 5 anos. Era simples e preciso também nas orações: “Dá-me Senhor um Intelecto que Te Busque, uma Sabedoria que Te encontre, uma conduta que Te agrade, uma Perseverança que em Ti espera e uma confiança que Te abrace, para sempre”.

Santo Tomás de Aquino, te pedimos, interceda por nós!